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É quase impossível viver sem criar um ruído doméstico, mas alguns ruídos realmente são difíceis de aguentar. Você quer descansar bem no dia que o seu vizinho decidiu levar um grupo de pagode pra animar o churrasco. Você quer assistir um filme, mas o pastor da igreja resolveu falar através de um microfone obrigando o bairro inteiro ouvir o sermão.
E aquela festinha de aniversário do prédio que te obriga a ouvir todos os discos da Xuxa da tardinha até as 10 da noite? E a festa de adulto com bêbado falando na maior altura 3 horas seguidas? E a serra elétrica da obra ao lado? O bate-estaca que vai lá no fundo do tímpano?
Algumas pessoas fazem questão de reclamar do barulho: gente que tem cachorro em casa, mas gosta de reclamar do latido do cachorro da casa do vizinho, por exemplo. Pra essas pessoas costumo perguntar se elas também vão lá no morro reclamar do barulho dos tiros que a gente ouve de noite.
Mas existem outras pessoas que são mais sutis. No tempo que eu precisava usar uma máquina de escrever pra trabalhar e em vez da palavra "digitar", usava-se dizer "bater" um texto (termo bastante apropriado por sinal), eu costumava trabalhar à noite, escrevendo minhas páginas para as revistas. No dia seguinte, era certo minha vizinha vir dizer "Trabalhou a noite toda, heim? Lá de casa deu pra ouvir o tec-tec da máquina!". Eu fazia que não ouvia...
Quando comprei o primeiro video game para os meus filhos não houve tanto problema. Mas os jogos eletrônicos evoluíram de uma tal maneira que uma vez meu filho estava se divertindo com um jogo de guerra que tinha muitos tiros de metralhadora, canhões, bombas, gritos... "Trrrrrraaaaaaa!!!!!! Trrrrrraaaaaaaa!!!! POW!!!! POW!!!!" Parava um pouquinho aí vinha um "BUUUMMM!!! AAAAAHHHHH!!!!" A coisa era bem real mesmo. Tão real que de repente lá estava o carro da polícia parado na minha porta e o policial dizendo havia recebido uma ligação de que havia um assalto na minha casa.
Mas existem uns barulhos que são ótimos de ouvir. Em dia de jogo, quem não gosta de ouvir a gritaria do bairro inteiro dizendo "GOOOOOOOOOOOLLLL"? E as cornetas? E os carros que passam buzinando depois do jogo? Só não é divertido se você não tiver assistido o jogo.
Outro barulho legal é quando acaba a luz e todo mundo fica com sua velinha no escuro um tempão... Aí, quando a luz vem, o povo todo grita junto: "ÊEEEEEEEHHHHHHHHHH!!!" A única coisa que não é bom é ficar sem luz no calor, ventilador desligado, coca-cola esquentando e ainda por cima sem computador.
No tempo que estava estudando, eu não podia me privar de um barulho: o do meu despertador. Sempre tive a maior dificuldade pra acordar de manhã cedo, de modo que minha mãe me deu um despertador enorme de presente de aniversário. Era gigante. Tinha uns 30 centímetros de diâmetro e um poderoso toque de despertar.
Quem gostou foi o meu vizinho, o Zeca. Aposentou o relógio dele e passou a acordar todos os dias para trabalhar com o barulho do meu despertador. Mas eu não sabia de nada disso, só depois é que eu soube da história.
O problema é que tenho hábitos um tanto excêntricos. Assim, um belo dia que eu tinha que estudar, em vez de ficar acordada até tarde e depois penar pra acordar às 6 da manhã, resolvi dormir um pouco mais cedo e colocar meu despertador pra despertar às 3 horas da madrugada. Estudaria de 3 às 6 da manhã e iria pra prova com a matéria fresquinha na cabeça.
E assim eu fiz. Às 3 da manhã, o despertador não falhou: "TRRRRRRRRRRRRRRRRIIIIIIIIMMMMMMMM" E eu acordei, é logico. Mas o Zeca, lá na casa dele, acordou também. Enquanto eu sentava na escrivaninha e abria meus cadernos, o Zeca, na casa dele, entrava no banheiro pra tomar banho e se barbear. Eu lia o capítulo da prova e, na casa dele, o Zeca vestia a camisa branca e dava o nó na gravata. Eram 3 e meia da madrugada.
Nada do dia clarear, pensava ele. Tomou café, todo arrumado, e o dia não clareava de jeito nenhum. Foi só quando colocou seu relógio de pulso é que ele viu que ainda não eram nem 4 horas da manhã!
Só soube do caso no dia seguinte, quando voltei da prova. Mas que culpa tenho eu? Não tenho culpa de nada...
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- Rio de Janeiro, RJ, Brazil
- Escritora freelance, arquiteta, escultora, pintora,miniaturista, professora... a cada dia descubro mais sobre mim.
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