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Acho que vou assim mesmo...

domingo, 22 de novembro de 2009 by Leila Franca


Às vezes você só tem que ir até o bar da esquina ou então não está muito inspirada ou inspirado para se arrumar naquele dia, de forma que você acaba dizendo a seguinte frase: "Vou assim mesmo", ou seja, vai, onde quer que seja, com a roupa que está usando no momento.

Woman wearing fitting shirt, mid section

Isso acontece muito quando temos que dar uma saída de carro pra levar alguém em algum lugar e achamos que não vamos precisar sair do carro: "não vou sair do carro, então vou assim mesmo!" Pronto! Vai de blusa listrada, short velho estampado, bustiê que você usou no último carnaval, vai de qualquer jeito. Mas aí que acontece algum problema com o carro e lá vai você desfilando na rua com aquela roupa horrorosa. Isso já me aconteceu e agora onde quer que eu vá, trato de ajeitar o visual mesmo que não pretenda sair do carro.

Mas algumas vezes somos pegos desprevenidos. Não prestamos atenção no traje que a ocasião requer. Uma vez fui a uma boate chique com um amigo e ele foi barrado porque estava de tênis! E era um tênis caro! Mais caro do que muito sapato! É lógico que não fiquei chateada, pois eu mesma já fui barrada na festa de um clube porque estava usando uma blusa de malha! Tinha que ser de tecido. Estou certa de que tanto eu quanto meu amigo, antes de sair de casa, dissemos: "acho que vou assim mesmo!"

Young man holding jeans in dressing room

Não sei como a gente pode esquecer certas coisas. Com uma semana de férias para tirar, lá fui eu passar aqueles dias num hotel beira-mar. Não me lembrei - mas não lembrei mesmo, de colocar em minha mala um vestido longo de gala. Você colocaria? Meu companheiro também não levou nenhum terno. Mas no meio daquela semana havia a noite de Ano Novo e não sabíamos que aquele hotel iria oferecer uma tremenda festa de reveillon! Resultado: eu e meu amigo fomos os únicos a festejar a passagem de ano de calça jeans e camiseta, no meio de um monte de gente em traje de gala. Que horror!

Certas situações realmente são constrangedoras. Não posso esquecer daquela vez em que fui a uma importante entrevista de emprego com a chefe poderosa do escritório e chegando lá descobri que estava usando um vestido idêntico ao dela! Ao entrar na sala, uma olhou para a roupa da outra e gritamos ao mesmo tempo: "Aaaaahhhhhhh!!!"

Bom, isso foi melhor do que a experiência de um amigo que decidiu vestir um terno para comparecer a uma entrevista de emprego. Ele não sabia muito sobre a empresa que oferecia a vaga e ainda pensou se não seria melhor vestir outra roupa, mas acabou concluindo: "Acho que vou assim mesmo!" Ao chegar na entrevista, todos os funcionários da empresa - que confeccionava pranchas de surf, skates etc, estavam usando bermudas, inclusive a pessoa que iria entrevistá-lo.

Mas às vezes não estamos tão errados, apenas damos azar. Uma amiga minha já estava de camisola se preparando para dormir quando ouviu o miado fininho de um gato. Ela pensou logo que era algum gatinho abandonado e foi espiar pela janela. Aí que ela viu na calçada da rua aquele bichaninho magrinho miando. A um metro de distância do bichinho passavam os carros e ônibus daquela rua movimentada. Que perigo!

No mesmo instante ela resolveu salvar o gatinho. Olhou para a camisola e pensou: "Acho que vou assim mesmo!" Desceu as escadas do prédio e num minuto estava na rua. Mas onde estava o gatinho? Como uma pluma, o gatinho correu e entrou pela grade de uma loja que já estava fechada. Ficou miando entre a vitrine e a grade. Minha amiga se abaixou para tentar pegá-lo e seu cabelo, preso com grampos, desabou parcialmente. Ela ainda se sujou na grade da loja, mas pegou o gatinho!

Quando finalmente ficou em pé, com aquele traje: camisola, cabelo solto de um lado e preso do outro e braço sujo, deu de cara com os pais de seu noivo que voltavam do teatro! Ela ainda tentou se explicar, mas não teve jeito!

Mas peraí: não é sempre que damos esse azar! Muitas vezes a gente arrasa o quarteirão, que não deixa de ser, também, uma experiência memorável. Eu me lembro que eu sempre ia trabalhar de camiseta, calça jeans, bota e mochila nas costas e os funcionários de uma empresa da esquina paravam o que estavam fazendo pra ficar me olhando quando eu passava. Não era nada demais, já que ninguém passava naquela rua! Se alguém passava, eles tinham que olhar, senão morreriam de tédio!

Isso se repetiu tanto, que eu até comecei a cumprimentar a todos quando passava e eles acenavam de volta. Mas teve um dia que eu tinha um compromisso depois do trabalho e não dava tempo de voltar em casa pra trocar de roupa. Então, em vez de sair de calça jeans e camiseta, desta vez usei um vestido preto um pouco abaixo do joelho, mangas três quartos e um belo decote. Meu cabelo parecia até anúncio de shampu. Caprichei também na maquiagem.

Quando passei pela esquina, os funcionários daquela empresa, em vez de apenas parar o que estavam fazendo pra olhar, desta vez eles fizeram diferente: deram uma salva de palmas!!!

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Em busca da imperfeição

quinta-feira, 5 de novembro de 2009 by Leila Franca


A brincadeira do artigo anterior me fez lembrar daquele tempo, de dez anos atrás. Naquela época, minha estratégia para combater o desemprego era ter pelo menos duas ou três atividades remuneradas diferentes, em horários ou dias alternados.

Entretanto, estes dois ou três empregos não eram suficientes para acalmar minha preocupação com o dia de amanhã. Então eu também aceitava serviços avulsos e tarefas de última hora. Mesmo assim, ainda pensava na probabilidade remota de ficar na dependência financeira de alguém e por isso minha mente não parava de bolar planos mirabolantes de fazer dinheiro por conta própria, o que de fato consegui inúmeras vezes. (Quase cheguei à conclusão de que o sucesso seria consequência de uma personalidade ansiosa.)

Pensava também que tinha de me manter atualizada e por isso não havia um dia que eu me levantasse sem ler as notícias dos principais jornais. Parar de estudar estava fora de cogitação. Precisava aprender e ensinar algo novo a cada dia.

Também não queria estar numa posição em que me sentisse solitária ou deprimida, portanto criei para mim passatempos que pudessem me manter ocupada e feliz para sempre. Atividades artísticas que fazem bem a alma. Entre uma tarefa e outra, eu pintava um quadro, uma aquarela ou fazia um desenho a bico de pena. Não me importava se aquilo me faria dormir apenas quatro horas por noite.

Tinha uma verdadeira dificuldade de fazer o que quer que seja com desordem à minha volta. Por isso mantinha documentos e papéis em pastas separadas e etiquetadas. Nas gavetas, a roupa dobrada. Meus talheres não podiam ficar misturados. Colher com colher, garfo com garfo, faca com faca. Não era muito fácil ser eu.

Mas nem sempre tudo funcionava da maneira como deveria ser. Estava tão acostumada com minha rotina que houve um dia em que fui trabalhar em pleno feriado. Só reparei que não era dia de trabalho quando fui estacionar o carro e tinha vaga. Também fui ao médico um dia antes da consulta marcada. É isso mesmo: a máquina de vez em quando trava.

Muitas vezes tirei um dia de folga (férias nunca), mas no dia seguinte precisava ir a nove lugares diferentes. Apesar de adorar paisagens campestres, acho que não me adaptaria a uma vida no campo. Sou uma pessoa da metrópole. Da confusão, do barulho, do engarrafamento, da poluição, do corre-corre, do anonimato.

Mas apesar de viver no controle da minha vida, este por vezes escapa. Ninguém é perfeito, mesmo que tente. Num dia em que teria de fazer um percurso digno de um quebra-cabeças do tipo labirinto, fui pega de surpresa.

Deveria comparecer a um compromissos em cada um dos meus três empregos no mesmo dia. Quando acordei, às 5 e meia da manhã ainda estava escuro. Me arrumei depressa, deixei bilhete com instruções para os filhos que dormiam, peguei o carro e saí. No primeiro emprego, tudo certo: "Mission accomplished!"

Passei no mercado, fiz um almoço rápido, deixei filho na escola, me arrumei de novo e fui para o segundo compromisso do dia: uma reunião importante na empresa do emprego número 2. A reunião não poderia durar mais do que duas horas, pensei. Assim, ainda poderia passar no caixa eletrônico, ir para o terceiro emprego, fazer um pequeno lanche e ir a faculdade. Estava tudo esquematizado.

Estacionei o carro em frente da empresa faltando apenas 5 minutos para a reunião. Estava dando tudo certo! Dei uma olhadinha no cabelo pelo espelho do carro, peguei a bolsa e ainda ia fumar um cigarrinho antes de entrar no prédio. Foi quando vi o problema: minha blusa estava do lado avesso!

Eu me perguntava como... Como vesti a blusa ao contrário? Não era uma blusa que desse pra disfarçar, dizer que era "estilo" estar do lado avesso. Era uma blusa do tipo social, com gola, bolso, botões na frente. A gola estava virada pra dentro. As linhas e fiapinhos dos botões estavam aparecendo. Do bolso, só se via o formato, pela costura. Coloquei a mão no alto das costas e senti as três etiquetas penduradas juntas. Não dava! Impossível ir à reunião vestida assim!

Frustrated Businesswoman

O que eu ia fazer? Na porta da empresa, pequenos grupos conversavam em círculos, na calçada e na rua havia um monte de gente andando. Como é que eu ia tirar a blusa ali? Mas que droga! O pior é que já haviam me visto chegando. Deram tchauzinho de longe. Como eu poderia fazer a volta e ir embora? Mas ao mesmo tempo, aparecer na reunião, quando todos param o que estão fazendo pra nos olhar, com aquela blusa ao avesso seria tenebroso!

Poderia tirar o carro da vaga, estacionar num lugar mais escondido e tirar a blusa. Mas pela lei de Murphy isso não poderia dar certo. Com certeza o próprio diretor da empresa apareceria na minha frente na hora que eu estivesse só de sutiã.

O pior é que estava fazendo um calor horrível dentro do carro. Já estava ficando suada, maquiagem derretendo. cabelo colando no pescoço. Um inferno! O que a gente não faz para não perder a pose!

Acendi um cigarro enquanto a hora da reunião ia chegando. Nunca havia chegado atrasada e não ia ser naquele dia que eu ia chegar! Ainda mais que eu já estava ali. Seria um absurdo. As pessoas já me olhavam de longe sem entender por que eu não saía do carro com o sol que estava fazendo. Eu fingia que procurava alguma coisa na bolsa. Que coisa mais ridícula!

Quer saber? Vou tirar a blusa aqui e pronto! "Tô no Rio de Janeiro, mermão! Qualé?!", pensei, tentando me convencer. Mas foi só desabotoar o primeiro botão e um homem apareceu na janela do carro: "Empresta o fósforo?" Não, não dava pra tirar a blusa ali! O pior é que não dava pra entrar rápido naquela empresa e seguir direto para o banheiro. Tinha que apresentar documento, cartão, crachá, rubricar um papelzinho, passar pela roleta, sorrir pra recepcionista, cumprimentar o segurança. Culpa da violência urbana.

Chegou a hora da reunião e todos que estavam na calçada sumiram no saguão do prédio. Tomei coragem, saí do carro e fui ter com a recepcionista. "Tem algum banheiro aqui embaixo?" Ela sorriu olhando para a etiquetona lateral da minha blusa (essa eu não tinha visto!) e me apontou um corredor. Caminhei rápido balançando as etiquetas da nuca, entrei no banheiro e virei a blusa.

Mais tarde pensei: sabe de uma coisa? É horrível ser perfeccionista! E a partir daquele dia tem faca na colher, tem colher no garfo, tem quadrado no redondo, tem papel fora da pasta, tem dias que chego atrasada, tem dias que simplesmente não faço e não vou. E se ficar sem emprego eu invento!

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