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Chegando perto do dia da criança, não sei por que lembrei de um versinho que tinha na coleção "O Mundo da Criança", que eu li e reli quando era garotinha. O versinho era assim:
"De que são feitos os meninos?
De que são feitos os meninos?
Rãs, caracóis, rabinhos pequeninos
De que são feitas as meninas?
De que são feitas as meninas?
Açúcar, perfumes e outras coisas finas
Disto são feitas as meninas"
Eu me identificava completamente com o poeminha, porque minhas coisas eram todas cheias de rendinhas, lacinhos, tudo bem feminino. E eu só tive irmãs, não tinha irmão. Então não tinha nada de menino na minha casa.
Entretanto, quando fiquei mais velha, tive 3 filhos meninos, então pensei que seria um desafio passar a conviver mais com a primeira parte do poema. Quando me divorciei e passei a cuidar dos meninos sozinha, aí mesmo é que eu mergulhei para sempre no mundo dos meninos.
Da mesma forma, penso nos pais que criam suas filhas meninas sem a presença da mãe. É mais difícil ver, mas também existe muito. Nesse caso os homens irão também precisar conviver com o mundo das meninas.
Penso que toda essa experiência de ter filhos homens no final foi positiva, apesar de que eu mesma assimilei a coisa e fiquei um pouco "guri" por causa deles. Deixei de ser "dondoca", passei a ser mais simples, mais direta e hoje em dia me arrumo em 5 minutos, conheço tudo de carrinhos e adoro um jogo de pc e video game.
Acho que disso tudo também são feitas as meninas.
Os garotos (dois meninos) ficavam o tempo todo comigo. Passeávamos na praia de manhã cedo, dançava com eles no colo e deixava que espalhassem os brinquedos pela casa toda. Às vezes eles até gostavam de brincar com as tampas de panela fazendo um tremendo barulho na cozinha.
As aventuras sempre aconteciam de manhã bem cedo, enquanto os adultos ainda estavam lerdos de sono. Certa vez subiram na pia da cozinha, um deles tampou o ralo com o calcanharzinho, abriram a bica e deixaram a pia encher até transbordar! De outra vez, abriram a tampa do forno, subiram em cima dela, fazendo o fogão virar. A sorte é que não tinha panelas em cima nem fogo ligado e nenhum deles se machucou. Não pensei que eles fossem capazes de tremenda proeza pois ainda usavam fraldas, mas depois desse susto fiquei mil vezes mais atenta!
Meu filho mais velho, super curioso, era o mais levado. Vivia "trabalhando" em alguma novidade. Ainda bem pequeno, se chegasse uma visita, lá ia ele remexer em suas coisas e aparecia com um vidrinho onde havia misturado vários ingredientes. Mostrando o frasco, perguntava à visita: "Quer saber o que é isto?" Ele ficava sério por uns instantes olhava para os lados e depois dizia como se fosse um segredo: "Veneno...". A visita arregalava os olhos e ele prosseguia com uma explicação complicada.
Acho que a maior traquinagem que fizeram foi subir numa estante na garagem onde haviam vários galões de tinta que iriam servir para pintar a casa. A estante virou, os galões caíram e se abriram, sendo que um dos galões caiu sobre o motor do carro do meu pai, cujo capô estava aberto. Ainda bem que meu pai tinha um temperamento bom. Ao ver o estrago no carro e os 3 dedos de tinta que cobria o piso da garagem, ele sentou num degrauzinho e riu de chorar.
Anos depois tive meu terceiro filho, também um menino. A confusão estava formada! Sentada no meu quarto trabalhando, eu os via passar pelo corredor comprido da casa: um de velocípede, um de patins e o outro de skate, fazendo um tremendo barulhão no piso de madeira. Eu acostumei a trabalhar com ruído à minha volta.
Nossa casa parecia um clube. Tinha mesa de ping-pong, totó, piscina, balanço e um quintal grande. Eu deixava os garotos trazerem os coleguinhas e a casa ficava cheia. Uma vez contei 25 meninos brincando no quintal. Diariamente, a farra era das grandes.
Não era fácil sair com os meninos no tempo em que eles eram pequenos e eu não tinha carro. Pegar dois no colo pra subir no ônibus sem cair exigia de mim um esforço supremo. Mesmo assim muitas vezes eles me acompanharam nas empresas que prestei serviço e na faculdade que comecei quando o mais velho tinha apenas 3 anos.
Eu estava tão acostumada a estar o tempo todo com os meus filhos, que numa das raras vezes que saí sem tê-los comigo eu mesma me surpreendi com o que fiz. Na volta para casa entrei numa sapataria que estava vazia. Somente os vendedores, de camisa branca e calça escura, estavam de pé em pontos estratégicos da loja a espera de clientes. Eu olhei os sapatos e quando ia sair da loja, olhei em volta e falei bem alto:
" Venham crianças!!!"
Eu esqueci que os meninos não estavam comigo naquele dia! Com a loja vazia, os vendedores que lá estavam em pé se entreolharam e com certeza pensaram que eu era maluca!
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