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Aprendi a dirigir num fusquinha, aliás já dirigi muito carro velho cheio de macetes pra poder funcionar. Antes eu tinha bloqueio: se o carro tivesse com algum problema eu preferia sair de ônibus, até que minha analista me convenceu de que quem dirige, dirige também os problemas. Então passei a dirigir tudo que é lata velha: carro que a porta não abre, depois não fecha, que o banco cai pra trás, carro sem freio de mão, sem espelho, sem limpador de para-brisa etc.
Logo que comecei a dirigir perguntei ao meu pai: "Pai, o que eu devo fazer se algum dia eu bater no carro de outra pessoa, quer dizer, se a culpa for minha?" E meu pai me respondeu com toda a sua sabedoria: "Você sai do carro, vá até o carro que você amassou e diga o seguinte ao motorista: Olha só o que o senhor fez!!!".
Mas eu nunca passei por nenhum acidente grave (só aquela vez que eu parei num sinal vermelho que ninguém para e o motorista que vinha atrás de mim teve perda total, embicou até o teto, ao bater no meu carro). Morando no Rio de Janeiro, logicamente, também já roubaram meu carro, mas sobre isso escrevo depois.
Sou educada no trânsito, cedo a vez, não xingo nem perco a classe, só quando alguém faz uma loucura pra me ultrapassar e depois fica andando feito uma tartaruga na minha frente. Só faço zigue-zague quando estou com pressa. Mas nunca bati dentro da minha garagem, só enganchei no carro da minha mãe e também teve uma vez que não reparei que uma cadeirinha de praia enganchou no meu carro dentro da garagem e eu acabei indo para o trabalho com aquela cadeira pendurada na traseira.
Depois melhorei de vida e comprei um carro semi-novo, mas só fui dirigir carro automático depois que fui morar nos Estados Unidos. Eu não cheguei a comprar carro lá, porque tinha o metrô, mas alugar carro naquele país não é tão caro como no Brasil. Agora, caminhão de mudança lá é caro. Talvez seja por isso que os americanos quando se mudam deixam tudo na casa e levam só uma mala.
Teve uma vez que eu e o americano que morava comigo resolvemos nos mudar de Springfield para Boston. Eram três horas de viagem e ele cismou de levar nossas coisas num caminhão. Ele alugou um caminhão, mas o problema é que ele não tinha carteira de motorista! Eu falei pra ele que a minha carteira não me permitia dirigir aquele tipo de veículo, então ficamos com um problema. Caminhão alugado, mas sem ninguém pra dirigir.
Um amigo nosso se ofereceu pra dirigir o caminhão. Problema resolvido, só que eu teria que dirigir o carro do rapaz pra ele poder depois voltar pra casa, já que devolveríamos o caminhão na cidade para onde estávamos nos mudando. Eu não sabia o caminho a tomar, então o caminhão iria na frente e eu atrás no outro carro. Tudo certo.
No dia da mudança, eu fiquei arrumando as coisas enquanto os dois americanos iam enchendo o caminhão. Só quando fui do lado de fora é que eu vi o carro que eu teria que dirigir... Era um carro conversível vermelho, baixinho, que eu nunca tinha visto de perto.
Mas a surpresa maior não foi somente o carro. Meu amigo tinha uma cobra chamada Jack que vivia num terrário. Eu pensei que esta cobra fosse em alguma caixa dentro do caminhão, mas ele disse que deixaria a cobra com uma amiga antes de seguirmos a viagem e por isso a cobra iria conosco só até a casa da garota...
Quando liguei aquele carrinho vermelho senti o poder do ronco do motor... ai ai ai... O americano que morava comigo apareceu com a cobra enrolada no pescoço e se sentou do meu lado. Eu, morrendo de medo, disfarcei e disse que só tinha medo de alpaca (assista o vídeo e entenderá).
Foi só encostar o pé no acelerador e o carro deu um pulo pra frente e saímos em disparada! Eu olhava pra frente, mas ao mesmo tempo prestando atenção na cobra que começou a se desenrolar do pescoço do meu amigo e vir com meio corpo no ar na minha direção. Eu já estava meia que virada de lado e a cobra chegando perto do meu cabelo!
O outro americano no caminhão corria mais do que tudo e em poucos minutos desapareceu da minha frente. Eu apertava mais o acelerador e o carro ia que ia, mas quando fazia alguma curva a cobra quase que caía entre o encosto do carro e as minhas costas.
Ainda bem que a casa da americana que ficou com a cobra não era muito longe. Ela, vendo que eu estava morrendo de medo e querendo curtir com a minha cara, pegou a cobra e enrolou no pescoço, dando uma risadinha pra mim.
Ainda rodamos bastante naquele dia. Meu amigo não era muito bom com mapas. Se íamos para a esquerda eu tinha a impressão que acabaríamos chegando no Maine e se íamos para a direita começávamos a ver as placas apontando Rhode Island. Mas finalmente chegamos em Boston onde o caminhão já tinha chegado há muito tempo.
video: Okiesp
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