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Mostrando postagens com marcador mudança. Mostrar todas as postagens
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Quando saiu da cidade, meu melhor amigo deixou um cartão de despedida. Não era um cartão comprado em loja. Era um retângulo de papelão onde ele escreveu à caneta a seguinte frase:
"A ave sai do ovo. O ovo é o mundo.
Quem quiser nascer
tem que destruir um mundo..."
A sentença foi extraída do livro "Demian" de Hermann Hesse, que nós havíamos lido pouco antes de sua partida. O romance conta a história de um rapaz que pela primeira vez sai da casa dos pais e encara o mundo.
Era isso que meu amigo iria fazer. Deixaria para trás sua zona de conforto. A casa dos pais, o ambiente familiar, onde tinha de tudo sem que precisasse fazer esforço algum e seguiria por um caminho totalmente desconhecido. Ele era a ave que se preparava para sair do ovo e o mundo que teria de romper era o único que então conhecia.
Pra começar a fazer uma coisa nova, precisamos deixar de fazer a que estamos fazendo no dia de hoje. O apego não existe somente em relação às pessoas e aos objetos. Podemos nos apegar também a um tipo de vida que estamos levando.
Qualquer mudança exige um rompimento com alguma coisa que irá passar a fazer parte do passado e da memória. É necessário coragem e determinação, mas vale a pena. A vida é movimento.
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Uma amiga me contou que no dia de sua mudança, de uma casa para outra, um fato inusitado aconteceu. Sua família havia passado o dia inteiro desmontando móveis, empilhando caixas e enchendo um caminhão. A noite chegou e ainda não haviam terminado, mas já estavam cansados demais para continuar. Faltava levar pouca coisa: várias gavetas vazias, que ficaram empilhadas num dos quartos, o estrado de uma cama, o esqueleto de um armário, caixas com livros didáticos e aqueles cacarecos que niguém sabe onde guardar e que sempre sobram no final de uma mudança.
A família resolveu dormir no chão de um dos quartos, com alguma roupa de cama que haviam reservado para forrar o assoalho e continuar a mudança no dia seguinte. Entretanto, com o movimento da mudança, as duas garotas, filhas do casal, não conseguiram dormir logo. Ficaram acordadas até tarde conversando. Uma delas, ainda estava tentando dormir, quando ouviu um barulhinho vindo da cozinha. Com o ouvido tão perto do chão, ela ouviu os passos no piso de madeira. Ficou quieta.
Aquelas pisadas, que ora se afastavam ora se aproximavam, entrou no quarto onde a família quase toda dormia. E foi assim, pela claridade da luz da rua, que entrava pela janela sem cortinas, que a garota viu os pés e parte das pernas do ladrão, que deu meia volta no quarto e saiu.
No dia seguinte ninguém parou de comentar. Um ladrão havia sim entrado na casa, por uma janela esquecida aberta, mas não deve ter entendido nada do que viu. Possivelmente pensou: que casa estranha! Pilhas de gavetas sem nada dentro, cozinha sem fogão, sem geladeira, quartos sem camas e uma família inteira dormindo no chão da casa bacana. Não roubou nada, pois não havia o que roubar e saiu da mesma forma com que entrou!
Algo parecido aconteceu na minha casa. Minha irmã havia chegado tarde de uma festa e ainda não estava dormindo quando viu duas mãos chapadas no vidro da janela de seu quarto. Sem fazer barulho, ela saiu da cama e foi engatinhando pelo corredor comprido até o quarto dos meus pais. Acordou meu pai e ele foi até o quintal, sem fazer barulho, levando consigo as bombinhas em forma de palito de fósforo que guardava para este tipo de ocasião.
No quintal, meu pai viu o ladrão escondido atrás de um barco que havia comprado para reformar. No chão, estavam os remos. Meu pai se aproximou do ladrão por trás, sem ser visto, e com um dos remos, deu uma "palmada" no indivíduo, que tomou o maior susto e saiu correndo. Meu pai soltou umas duas bombinhas cujo ruído se parece com tiros de arma de fogo, para garantir. No dia seguinte, descobrimos que, na fuga, o ladrão deixou cair seus documentos e pôde ser identificado.
Mas isso tudo foi num tempo que os ladrões não eram tão brabos quanto os atuais. Mas os de hoje também podem se dar mal. Não faz muito tempo que eu estava num ônibus atravessando a ponte Rio-Niterói. Lógico, nessa pista não temos nenhuma parada em seus quase 14 quilômetros e dos dois lados só há o mar. No último ponto, antes do ônibus começar a atravessar a ponte, um grupo de pivetinhos e pivetões entrou.
Mal começamos a cruzar a baía, os garotos anunciaram o assalto. O mais velho parecia ser ainda menor de idade, uns 16 ou 17 anos, e o mais novo devia ter uns 7 ou 8 anos. Em silêncio, os passageiros entregaram suas carteiras, relógios e objetos de valor, inclusive eu, enquanto o ônibus seguia o seu caminho. Todos os objetos roubados iam sendo guardados numa mochila, que o menorzinho deles carregava.
O grupo de ladrões ficou alguns minutos na frente do ônibus, controlando os passageiros até que o veículo terminasse a travessia. Quando os pivetes saíram do ônibus, os passageiros suspiraram aliviados, mas foram logo interrompidos por um homem que estava sentado na primeira poltrona lá na frente, que começou a rir alto: o pivetinho havia esquecido a mochila no ônibus!
Além de cada um pegar de volta o que era seu, ainda haviam outros objetos possivelmente de outros roubos, que foram entregues ao motorista.
Abaixo, um vídeo de um ladrão que também se deu mal. É muito engraçado. Vale a pena ver.
Vídeo: lodelahiti
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Aprendi a dirigir num fusquinha, aliás já dirigi muito carro velho cheio de macetes pra poder funcionar. Antes eu tinha bloqueio: se o carro tivesse com algum problema eu preferia sair de ônibus, até que minha analista me convenceu de que quem dirige, dirige também os problemas. Então passei a dirigir tudo que é lata velha: carro que a porta não abre, depois não fecha, que o banco cai pra trás, carro sem freio de mão, sem espelho, sem limpador de para-brisa etc.
Logo que comecei a dirigir perguntei ao meu pai: "Pai, o que eu devo fazer se algum dia eu bater no carro de outra pessoa, quer dizer, se a culpa for minha?" E meu pai me respondeu com toda a sua sabedoria: "Você sai do carro, vá até o carro que você amassou e diga o seguinte ao motorista: Olha só o que o senhor fez!!!".
Mas eu nunca passei por nenhum acidente grave (só aquela vez que eu parei num sinal vermelho que ninguém para e o motorista que vinha atrás de mim teve perda total, embicou até o teto, ao bater no meu carro). Morando no Rio de Janeiro, logicamente, também já roubaram meu carro, mas sobre isso escrevo depois.
Sou educada no trânsito, cedo a vez, não xingo nem perco a classe, só quando alguém faz uma loucura pra me ultrapassar e depois fica andando feito uma tartaruga na minha frente. Só faço zigue-zague quando estou com pressa. Mas nunca bati dentro da minha garagem, só enganchei no carro da minha mãe e também teve uma vez que não reparei que uma cadeirinha de praia enganchou no meu carro dentro da garagem e eu acabei indo para o trabalho com aquela cadeira pendurada na traseira.
Depois melhorei de vida e comprei um carro semi-novo, mas só fui dirigir carro automático depois que fui morar nos Estados Unidos. Eu não cheguei a comprar carro lá, porque tinha o metrô, mas alugar carro naquele país não é tão caro como no Brasil. Agora, caminhão de mudança lá é caro. Talvez seja por isso que os americanos quando se mudam deixam tudo na casa e levam só uma mala.
Teve uma vez que eu e o americano que morava comigo resolvemos nos mudar de Springfield para Boston. Eram três horas de viagem e ele cismou de levar nossas coisas num caminhão. Ele alugou um caminhão, mas o problema é que ele não tinha carteira de motorista! Eu falei pra ele que a minha carteira não me permitia dirigir aquele tipo de veículo, então ficamos com um problema. Caminhão alugado, mas sem ninguém pra dirigir.
Um amigo nosso se ofereceu pra dirigir o caminhão. Problema resolvido, só que eu teria que dirigir o carro do rapaz pra ele poder depois voltar pra casa, já que devolveríamos o caminhão na cidade para onde estávamos nos mudando. Eu não sabia o caminho a tomar, então o caminhão iria na frente e eu atrás no outro carro. Tudo certo.
No dia da mudança, eu fiquei arrumando as coisas enquanto os dois americanos iam enchendo o caminhão. Só quando fui do lado de fora é que eu vi o carro que eu teria que dirigir... Era um carro conversível vermelho, baixinho, que eu nunca tinha visto de perto.
Mas a surpresa maior não foi somente o carro. Meu amigo tinha uma cobra chamada Jack que vivia num terrário. Eu pensei que esta cobra fosse em alguma caixa dentro do caminhão, mas ele disse que deixaria a cobra com uma amiga antes de seguirmos a viagem e por isso a cobra iria conosco só até a casa da garota...
Quando liguei aquele carrinho vermelho senti o poder do ronco do motor... ai ai ai... O americano que morava comigo apareceu com a cobra enrolada no pescoço e se sentou do meu lado. Eu, morrendo de medo, disfarcei e disse que só tinha medo de alpaca (assista o vídeo e entenderá).
Foi só encostar o pé no acelerador e o carro deu um pulo pra frente e saímos em disparada! Eu olhava pra frente, mas ao mesmo tempo prestando atenção na cobra que começou a se desenrolar do pescoço do meu amigo e vir com meio corpo no ar na minha direção. Eu já estava meia que virada de lado e a cobra chegando perto do meu cabelo!
O outro americano no caminhão corria mais do que tudo e em poucos minutos desapareceu da minha frente. Eu apertava mais o acelerador e o carro ia que ia, mas quando fazia alguma curva a cobra quase que caía entre o encosto do carro e as minhas costas.
Ainda bem que a casa da americana que ficou com a cobra não era muito longe. Ela, vendo que eu estava morrendo de medo e querendo curtir com a minha cara, pegou a cobra e enrolou no pescoço, dando uma risadinha pra mim.
Ainda rodamos bastante naquele dia. Meu amigo não era muito bom com mapas. Se íamos para a esquerda eu tinha a impressão que acabaríamos chegando no Maine e se íamos para a direita começávamos a ver as placas apontando Rhode Island. Mas finalmente chegamos em Boston onde o caminhão já tinha chegado há muito tempo.
video: Okiesp
Só que isso nem sempre é fácil. Arrastar móveis, tirar tudo de dentro pra ficar mais leve, passar com uma mesa por uma porta estreita pode ser trabalhoso. O pior é quando tem que desmontar. Com preguiça de pegar a chave de fenda e deixar o móvel em pedacinhos, muitas vezes acabamos por empurrá-lo montado mesmo, ainda que isso não seja recomendável. E ainda há o caso daqueles móveis que se desmontar nunca mais serão os mesmos.
Muitas vezes as mulheres ficam entusiasmadas com sua nova idéia para a arrumação, mas dependem da boa vontade de maridos, namorados, irmãos ou pais para ajudar na parte pesada. Eles, que preferiam muito mais ficar com a casa do jeito que sempre esteve, não gostam nem um pouco de ter que largar o jornal, o computador, o jogo ou a preguiça do domingo pra ficar arrastando cama, levantando colchão, muito menos desarmando e armando armários. Tentam logo persuadir as mulheres a deixar a arrumação do jeito que está. Mas as mulheres, ansiosas, não irão se conformar com esta resposta tão pouco criativa.
Deixam passar alguns dias e sugerem novamente a mudança no domingo seguinte. Quem disse que o marido vai levantar da poltrona ou que o irmão vai largar o youtube pra ficar arrastando coisa pesada? Isso dá até briga! Mas não adianta falar pra ela que vai incomodar os vizinhos com o barulho, que está calor e ai de quem se atrever a dizer que com a nova arrumação a casa ficará pior!
Cansada dessa situação, eu -- mulher independente e dona de si, aproveitei um dia em que todos haviam saído para empurrar os móveis do jeito que eu bem entendesse! Ia ficar bom e pronto! Meu pai sempre me falou que as mulheres têm força física, sim. Então decidi pôr em prática este ensinamento e lá fui eu mudar tudo.
Resolvi tirar tudo de dentro de um quarto e colocar em outro. Mudar de quarto seria divertido. Depois de tirar todas as coisas pequenas, até um colchão, sobrou um gigante: um armário duplex com 8 portas. O certo seria desmontar o dinossauro. Até tentei, mas quem disse que os parafusos se moviam? Aquilo tinha sido apertado com uma força descomunal. Estavam ali há anos. Eu não ia conseguir tirar aqueles parafusos. Ia ter que arrastar o armário montado mesmo.
Peguei a trena e medi o armário, depois medi a porta. Dava pra passar certinho. Tirei tudo de dentro do armário e coloquei na sala. Não era pouca coisa. Ia ter é coisa pra guardar depois, mas não importava. Entrei num espacinho entre o armário e a parede (como é bom ser pequena!), apoiei minhas costas e fiz força com os joelhos e os braços. O armário se moveu alguns centímetros do lugar. Pouca coisa, mas se moveu. "Vou conseguir!", pensei. De centímetro em centímetro vou levar esse grandão até a sala.
Mais um pouco de força e desta vez o armário andou bem um palmo! O negócio era tirar o bicho da posição inicial. Depois era mole! Estava animada. Mais esforço e o armário andou quase 1 metro! Agora um pouco pro lado. Desencostou da parede. Encaixou na porta. Agora era só ir reto! Sempre fui boa de manobra, era hoje que eu ia tirar o armário da vaga! Fui, fui, até que... parou!!! Isso mesmo, parou. Fiz mais um pouco de força, mas o armário não saiu mais do lugar.
Uma pequena protuberância na parte superior do armário, um defeito qualquer na madeira, fez com que ele ficasse entalado na porta! Não passava mais! Ah! Que raiva! Nesse ponto eu ainda não tinha reparado o problema em que me encontrava. Empurrar o armário pesadão era uma coisa, puxá-lo era outra completamente diferente!!! Puxar o armário de volta era impossível. Ainda mais que ele estava preso na porta!
Conclusão: eu estava presa no quarto!!!
E eu estava num prédio e não era um apartamento térreo. Não havia ninguém em casa. Tão cedo ninguém ia chegar. Na sala, o telefone começou a tocar e eu não podia atender. Não tinha ficado nada dentro do quarto que pudesse me socorrer. Cheguei na janela pra ver se eu via alguém. Ninguém. Não tinha ninguém!
Cadê a velhinha que ficava sempre me espiando? Devia ter saído. A janela dela estava fechada. Vi duas garotas passando ao longe. Gritei: "Ei!!!!" Elas olharam... pro lado errado e continuaram andando! Mas que droga!!! Que raiva! Maldita arrumação! Socorro!!!
Olhei pra baixo, pra fachada do prédio pra ver se dava pra botar meu pé em algum lugar, mas não tinha nada, era lisinho. Ainda mais eu tinha medo de cair. Estava o maior calor naquele quarto. Fiquei logo morrendo de sede, com vontade de ir no banheiro, meu cigarro estava comigo, mas o fósforo estava na sala!!!
Fiquei mais de uma hora ali de castigo até que minha família chegou de volta e me libertou da armadilha doméstica que construí para mim.
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- Leila Franca
- Rio de Janeiro, RJ, Brazil
- Escritora freelance, arquiteta, escultora, pintora,miniaturista, professora... a cada dia descubro mais sobre mim.
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