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Quando saiu da cidade, meu melhor amigo deixou um cartão de despedida. Não era um cartão comprado em loja. Era um retângulo de papelão onde ele escreveu à caneta a seguinte frase:
"A ave sai do ovo. O ovo é o mundo.
Quem quiser nascer
tem que destruir um mundo..."
A sentença foi extraída do livro "Demian" de Hermann Hesse, que nós havíamos lido pouco antes de sua partida. O romance conta a história de um rapaz que pela primeira vez sai da casa dos pais e encara o mundo.
Era isso que meu amigo iria fazer. Deixaria para trás sua zona de conforto. A casa dos pais, o ambiente familiar, onde tinha de tudo sem que precisasse fazer esforço algum e seguiria por um caminho totalmente desconhecido. Ele era a ave que se preparava para sair do ovo e o mundo que teria de romper era o único que então conhecia.
Pra começar a fazer uma coisa nova, precisamos deixar de fazer a que estamos fazendo no dia de hoje. O apego não existe somente em relação às pessoas e aos objetos. Podemos nos apegar também a um tipo de vida que estamos levando.
Qualquer mudança exige um rompimento com alguma coisa que irá passar a fazer parte do passado e da memória. É necessário coragem e determinação, mas vale a pena. A vida é movimento.
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Começa com uma conversa, onde uma ou ambas as partes se empolga e a coisa vai esquentando até que se torna um discurso, uma discussão acalorada e qualquer que seja o objeto que por acaso estava em sua mão se torna uma parte ativa e cômica da cena...
Uma vez a campainha lá de casa tocou bem na hora que eu e o marido estávamos na cozinha preparando o almoço. Ele foi atender a porta, mas distraidamente levou consigo um ovo cozido que iria descascar para colocar na salada. Na porta, dois religiosos começaram uma ladainha tentando convencê-lo a se converter naquela religião.
O marido começou a discussão acerca de igrejas e crenças enquanto eu me divertia de longe vendo que ele quase encostava aquele ovo cozido no nariz dos religiosos, que tentavam se esquivar. Ele nem reparou que o tempo todo gesticulou com aquele ovo na mão!
De outra vez eu estava trabalhando numa cantina que servia um sanduíche cortado ao meio. Para segurar as duas bandas do pão, se espetava um palitinho com um enfeite na ponta. Logicamente, antes de comer, a pessoa teria que retirar o palito! Entretanto, um cliente esqueceu de fazer este gesto tão simples e o que aconteceu foi um episódio tragicômico.
O rapaz se levantou de uma das mesas e, fazendo uma careta, disse que queria falar com o gerente. Mas era com a gerente mesmo que ele estava falando. Então, muito alterado, ele começou dizendo que havia mordido o palito do sanduíche e tinha quebrado o dente! Para completar a reclamação, mostrou a todos um enorme dente molar! Algumas pessoas se levantaram pra ver...
A gerente deu um passo pra trás assim que viu o dente na mão do homem. "Não é possível que este palito tenha quebrado o seu dente!", duvidou ela. O rapaz ficou indignado e se virou para falar com os outros clientes (a partir deste momento ele já havia esquecido que estava com o dente na mão). "Muito cuidado com estes palitos!" - ele avisou esticando o braço. Todos evitaram a aproximação do dente e uma clareira se abriu no meio do salão. Depois, virou-se para a gerente e continuou: "Quem é que vai pagar a conta do dentista?"
A discussão se prolongou por mais uns 10 minutos, pois a falta do dente havia despertado o orador que vivia no rapaz. Durante todo o tempo ele gesticulou sem largar o dente em nenhum momento. E no final todos já estavam prendendo o riso pelos cantos.
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