Subscribe to RSS Feed
Mostrando postagens com marcador ônibus. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ônibus. Mostrar todas as postagens

A moça do ônibus

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011 by Leila Franca


Há pouco tempo atrás, voltando de uma curta viagem, peguei um ônibus pra chegar em casa. Eu tinha até pensado em pegar uma van, mas assim que deixei o ônibus da viagem, saí do prédio da rodoviária e cheguei na rua, um ônibus comum, que ia para o meu bairro, parou bem na minha frente, com a porta aberta, então entrei.

Todos os lugares estavam ocupados e eu era a única em pé. Logo no ponto seguinte, entrou uma moça no ônibus e ficou tambem em pé ao meu lado. A garota, de uns 20 e poucos anos, era muito bonita e estava elegantemente vestida. Ela chamava atenção porque ninguém num ônibus como aquele anda tão arrumado assim às 6 da tarde, quando todos estão voltando do trabalho, meio amassados e descabelados.



A moça era loura, com cabelos lisos e compridos, parecendo anúncio de shampu. Tinha mãos e unhas de quem nunca lavou uma panela, enfeitadas com anéis e pulseiras de bom gosto e qualidade. Uma blusa colada no corpo que combinava perfeitamente com a saia preta. Ela podia ser uma secretária executiva, uma recepcionista de alto padrão, uma comissária de bordo, mas sem dúvida, uma garota com muita classe.

"
Querida, a única coisa que você está precisando, é de um carro!" - pensei eu. E, nesse momento, por coincidência, passou pelo ônibus, um carro guiado por uma moça muito bonita também, parecendo a moça do ônibus. "Viu? Essa é você, amanhã." - pensei.

Na minha frente, no ônibus, estava sentado um rapaz, acima dos 20, mas com menos de 30 anos. Ele estava de calça preta e camisa social. Um corte moderno no cabelo e óculos escuros. Não fazia 10 minutos que a moça loura tinha entrado no ônibus e o rapaz abriu uma pasta, tirou um cartão, riscou com uma caneta uns números da frente do cartão e escreveu um outro número atrás. Em seguida, guardou o cartão no bolso da camisa.



"Aposto um doce que esse rapaz vai arranjar um jeito de dar esse cartão pra moça loura!" - pensei eu. E a partir desse momento passei a prestar atenção no que ia acontecer, como quem assiste o último capítulo da novela.


Passados uns 5 minutos, o rapaz se ofereceu pra segurar a bolsa da moça. Ela aceitou, com um sorriso. Pensei até que ele poderia, disfarçadamente, colocar o cartão na bolsa da moça, para que ela achasse depois. Mas ele não estava com jeito de que iria correr o risco dela não se lembrar e jogar fora. Ele iria esperar um momento melhor. E nessa hora eu também pensei: "Querido, você também está precisando urgentemente de um carro!"

O ônibus seguiu viagem naquele calor infernal e eu prestando atenção... De repente, um celular tocou na bolsa da moça. Sem tirar a bolsa do colo do rapaz, ela debruçou-se sobre ele, remexeu a bolsa e pegou um telefone. Mas não era aquele telefone que estava tocando! Ela mexeu a bolsa mais uma vez e tirou outro telefone. Mas ainda não era o que chamava! O toque continuou! Lá foi ela mexer na bolsa de novo e tirou o
terceiro telefone da bolsa! Também não era! E novamente, ela tirou o quarto telefone da bolsa!!!! Enfim era o que estava tocando!


Com quatro telefones celulares nas mãos, ela atendeu ao chamado, falando com uma voz impossível de se ouvir. O rapaz ficou rindo e eu espantada. Por que uma pessoa andaria com quatro telefones na bolsa? Eu tinha esquecido o meu único em casa.

O rapaz aproveitou o incidente dos telefones e a aproximação repentina e inusitada de todas as quatro vezes que a garota precisou debruçar-se sobre ele, mexer na bolsa até achar os aparelhos para iniciar uma conversa.

Mas essa conversa foi curta e impecável. Ele tirou o cartão do bolso, mostrou pra ela e falou:

"
Me telefona?"

E colocou o cartão na bolsa da moça junto dos quatro telefones.



Continue Reading
17 comentários

Lugares diferentes seguem regras diferentes

quarta-feira, 6 de outubro de 2010 by Leila Franca


Quando eu morava em Boston, resolvi ir a uma cidade chamada Dedham porque toda vez que abria o jornal, via ofertas incríveis de uma grande loja de departamentos nessa cidade. Eu sempre via passar um ônibus para Dedham e ficava com vontade de ir até lá pra conhecer. De brincadeira, eu chamava Dedham de "Dedão"...

Um dia, num impulso, peguei o ônibus que ia pra lá. O ônibus rodou muito antes de chegar. Era longe! Estava nevando e a paisagem era totalmente branca. Pela janela, só via pinheiros e mais pinheiros cobertos de neve. Nenhuma casa, nenhum prédio.

Rural road in winter

Finalmente, cheguei. O ônibus parou bem em frente da loja. O prédio era enorme, parecia um shopping, mas ficava no meio do nada, rodeado por pinheiros e afastado da cidade. O curioso é que não havia ninguém naquele lugar! Nenhum cliente, pessoa alguma caminhando pelos corredores. Até mesmo vendedores eram raros.

woman in shopping mall

Sozinha, percorri quase todos os setores. Vendia-se tudo ali. Não apenas roupas, mas também artigos eletrônicos e eletrodomésticos. Havia de tudo. A loja era gigante. Por isso passei a tarde me divertindo com as novidades. Quando cansei, resolvi ir embora.

Perguntei a um vendedor onde era o ponto do ônibus para voltar pra Boston. Soube então que ali era uma espécie de ponto final. Eu deveria pegar o ônibus no mesmo ponto onde eu havia chegado.

Do lado de fora, logo observei que havia um cartaz pregado na parede que dizia: "ônibus só até as 18 horas"!!! Tomei um susto! Olhei no relógio, eram exatamente 18 horas! E o ônibus, pontual, vinha vindo!!! Era o último! Ah! Que coisa! Em que lugar só tem ônibus até as 18 horas? Só mesmo em Dedham!

ARLINGTON, VA - FEBRUARY 7: A bus stop is seen snowed in after a storm February 7, 2010 in Arlington, Virginia. With the work week beginning tomorrow the DC area has begun to clean up after its second major winter storm of the season, which left over 24 inches of snow in some areas. (Photo by Brendan Smialowski/Getty Images)

A verdade é que estamos tão habituados com a nossa realidade e com a nossa cidade, que é muito comum pensarmos que em outros lugares tudo funciona do mesmo jeito. É um tanto impactante descobrir que lugares diferentes podem seguir regras totalmente diferentes. É estranho.

Por coincidência, cheguei no ponto no último minuto! Se perdesse aquele ônibus, não sei o que seria de mim naquele lugar congelado só com pinheiros e uma grande loja vazia.

Continue Reading
9 comentários

Não deixe ninguém dormir aí não, heim?

sábado, 19 de dezembro de 2009 by Leila Franca


Tem gente que dorme à toa: numa sala cheia de gente conversando, no cinema, no ônibus e até em pé. Nunca fui dorminhoca assim, mas quando eu era criança sempre caía num sono profundo toda vez que o carro do meu pai chegava em frente a porta de nossa garagem na volta de um passeio. Assim eu tinha de ser carregada no colo até a minha cama. Bem, às vezes eu estava só fingindo que estava dormindo pois estava com preguiça de andar.

Rear view of a young man carrying a sleeping young girl (4-6) in his arms

Uma vez dormi em plena sala de aula, no meio da temida arguição de História Geral, e acordei de sobressalto com a professora me perguntando quem havia sido Ramsés III. Anos depois, frente a frente com sarcófagos egípcios no interior de um grande museu, tive de dizer: "Ah... enfim te encontrei, heim?"

Teenage Girl Sleeps at Her Desk in a Classroom of Secondary School Students

Na faculdade houve um dia que dormi numa sala e acordei bem depois do horário da saída, quase no dia seguinte! Todos tinham ido embora e ninguém me viu ali. Tive que pedir ao vigia que me abrisse o portão de saída e fiquei até com medo de ser suspensa, mas felizmente nada aconteceu.

Young man sleeping in the corner of a classroom

Confesso que já dormi uma vez no cinema, enquanto assistia ao filme A Flauta Mágica, de Ingmar Bergman. Eu estava super cansada e a ópera de Mozart cantada em sueco me fez dormir. Fiquei aborrecida comigo mesma porque gosto tanto do músico quanto do cineasta, mas o filme foi como um sedativo em dose dupla naquela noite e só acordei quando as luzes acenderam. Bem, melhor que minha mãe, que dorme basicamente no final de todos os filmes que vê.

Mas quando a gente está super cansado e morrendo de sono é capaz de dormir em qualquer lugar. Uma vez, com um grupo de amigos, chegamos ao local do acampamento já tão tarde que, no escuro, armamos a tenda muito perto da praia e no meio da noite, quando a maré subiu, fomos acordados por uma onda que invadiu a barraca! Achamos até conchinha grudada nos cobertores. Depois disso, fomos armar a barraca no alto do morro.

Young man lying in sleeping bag, couple by tent in background

Mas dentre os lugares mais estranhos que já dormi, sem dúvida foi a vez que, voltando de um grande show de rock, dormi na garupa de uma moto. Tinha pulado a noite inteira e não resisti. Não sei como pude dormir com todo aquele barulho e o vento. Até hoje penso que poderia ter caído da moto em movimento.

Couple riding motorcycle

As pessoas costumam ser cruéis com quem dorme em lugar errado. Uma vez colocaram pasta de dente na minha cara enquanto eu dormia, pintaram minhas unhas, mas também já fiquei quieta olhando alguém dormir num degrau de uma piscina vazia, enquanto esta estava sendo cheia d'água. Queria saber em que momento a pessoa iria acordar!

Group of young men drawing on a sleeping man's face

Mas não há nada pior do que alguém dormindo do nosso lado num ônibus, trem ou avião. A pessoa dormindo vai caindo em cima da gente, vai se encostando e a gente se esquivando. Daqui a pouco não tem mais lugar pra fugir e aí o jeito é empurrar o dorminhoco. Mas não dura um segundo e lá vem o cara de novo querendo fazer nosso ombro de travesseiro. Isso dá a maior raiva. Às vezes a pessoa até acorda, fala: "Desculpa" e torna a dormir de novo.

Sleeping Businessman Leaning His Head on the Shoulder of a Fellow Passenger on a Commercial Aeroplane

Mas, quem é que ainda não dormiu dentro de um ônibus? Bom, eu dormi uma vez mas não perturbei ninguém - pelo menos eu acho! Estava voltando da faculdade e já era tarde da noite. Não tinha dormido direito na véspera por causa da prova e fui uma das últimas a sair de sala. Assim, quando sentei naquele ônibus quase vazio dormi mesmo e fui parar no ponto final, muito depois da minha casa!

Teenage girl in school bus

"Moça! Moça! Acorda aí!" - disse o motorista me sacudindo o ombro. Arregalei os olhos sem entender nada. "Já chegamos! É o ponto final aqui!" Olhei no relógio e já passava da meia-noite. E agora? O que eu ia fazer pra voltar pra casa àquela hora? Falei que eu ia ficar naquele ônibus mesmo pra poder pegar a viagem de volta e saltar no meu ponto. Mas o ônibus estava indo pra garagem! "Agora só daqui a uma hora que vai ter outro ônibus", explicou o motorista. Olhei para o lado de fora e senti a barra pesada daquele lugar. O motorista entendeu.

"Se quiser, eu te levo de carona. Estou indo pra garagem, mas é o mesmo trajeto." Aceitei. Sentei lá na frente do ônibus um tanto quanto apreensiva e desconfortável com a situação. Mas o motorista foi gente fina e fez até mais do que eu esperava. Quando chegou perto do meu ponto, ele perguntou: "Que rua é que você mora?" Eu respondi: "É a segunda a direita!"

E aquele ônibus grandão entrou naquelas ruas residenciais mais estreitas que a principal, percorrendo um caminho que normalmente eu teria de seguir à pé, e me deixou bem em frente da minha casa!

Continue Reading
8 comentários

Cuidado com esta garota!

domingo, 13 de dezembro de 2009 by Leila Franca


A história de hoje me foi contada pela Valéria Braz e eu apenas a escrevi com minhas próprias palavras. Obrigada Valéria pela sua participação! Vamos começar?

Mosaic of Child Near Beach

Valéria ainda era uma adolescente pequenininha e franzina, quase uma menina ainda e já ia para o centro de São Paulo sozinha, pegando dois ônibus e o metrô. Garotinha decidida, ela participava de um grupo de ajuda de idosos e quando voltava pra casa já eram quase 9 da noite.

Uma vez, enquanto ela passava pela calçada de uma fábrica desativada numa rua escura, já bem perto de casa, viveu uma situação que até gente grande tem medo: foi abordada por um homem esquisito, que a atacou! Num segundo, ele conseguiu segurar suas duas mãos e ela viu que ele estava armado com uma faca!

Angry Tough Guy

Apesar de estar carregando várias sacolas e até um gravador, a mocinha tentou se livrar daquele que lhe apertava os pulsos. Ela falou com o sujeito enquanto fazia força para se libertar e, aproveitando um minuto de distração, conseguiu soltar uma das mãos e aplicou-lhe um golpe certeiro entre as pernas com o gravador!

Enquanto o marginal xingava e se contorcia de dor, ela se soltou completamente e fugiu sem olhar para trás. Correu sem parar, mas com medo de que o homem descobrisse onde morava, em vez de entrar em casa, Valéria foi direto até uma obra ao lado, onde pediu socorro aos operários que lá estavam. Um deles avisou seu pai e todos saíram em busca do agressor, que não foi encontrado.

Girl running, carrying lunchbox and papers; dog running beside her

Depois disso, Valéria não teve coragem de sair de casa sozinha por vários dias e como se não bastasse ainda estava recebendo ligações anônimas com ameaças! Só saía acompanhada dos pais. Toda a família estava assustada. E assim, somente quando se sentiu realmente preparada é que Valéria voltou a sair.

Close-up of person with green karate belt

Experimentou dar uma voltinha na rua e viu que nada acontecera. Resolveu então sair como de costume, mas logo no primeiro dia, quando voltava para casa, observou que um indivíduo estava fazendo o mesmo caminho que ela. Cismada com aquilo, Valéria experimentou andar mais devagar e o homem também retardou seu passo; andou mais rápido e o sujeito se apressou. Atravessou a rua e o indivíduo fez o mesmo! Já estava ficando bastante nervosa com a aparente perseguição quando observou que o cidadão entrou numa padaria. Então ela se tranquilizou, mas foi por pouco tempo. Minutos depois, lá estava ele a seguindo de novo!

Quando Valéria parou no ponto do ônibus, pensou que o sujeito continuaria andando, mas não foi isso que aconteceu. Ele parou no ponto também! Finalmente seu ônibus chegou e ela foi entrando no veículo, enquanto tomava conta do homem, que ficara para trás... Mas ela quase teve um ataque ao ver que, no último segundo, o indivíduo correu para entrar no ônibus também e vinha logo atrás dela! Agora era fato, ele a estava seguindo. Não havia como negar!

Businesswoman  standing on curb, low angle view

Ela decidiu saltar do coletivo um ponto antes do seu. Se o homem também saísse do ônibus, seria a prova final de que ele a estava seguindo mesmo! Assim que Valéria puxou o sinal e foi para a porta do ônibus, ela viu que o cara estava se ajeitando para descer também.

A cada degrau que descia do ônibus, ela se sentia mais apavorada. Mais alguns passos e ela foi se aproximando de uma banca de jornal, cujo dono era amigo de sua família. Ela conseguia sentir a proximidade do sujeito que a estava seguindo. Então aquele pavor foi se transformando em ansiedade e a ansiedade foi virando raiva e a raiva foi subindo, subindo... até que...

Composite of lightning bolts and human eye

Sua paciência chegou ao fim! Começou a ver tudo vermelho! E todas as raivas que teve na vida se aglomeraram em uma só! É hoje!!!

close-up of a person's mouth and nose (toned)

Valéria partiu pra cima do cara na decisão! Ele ficou pálido e recuou diante da investida! A cada bolsada Valéria falava tudo o que tinha ficado preso desde a noite que foi atacada na calçada da fábrica! O homem ainda conseguiu falar: "Que isso moça! Nem te conheço! Tá doida?" Mas Valéria não estava mais ouvindo nada!

Young man

Valéria só parou de bater no homem com a bolsa quando sentiu que alguém lhe segurava pela gola da blusa com força: era o dono da banca de jornal, amigo de sua família, que a impediu de continuar dando bolsada no sujeito. "Largue! Largue ele! É meu sobrinho!"

Assim Valéria entendeu. O homem que ela pensou que a estava seguindo era sobrinho do dono da banca e estava indo visitá-lo!

Continue Reading
13 comentários

Quando o ladrão se dá mal

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009 by Leila Franca


Uma amiga me contou que no dia de sua mudança, de uma casa para outra, um fato inusitado aconteceu. Sua família havia passado o dia inteiro desmontando móveis, empilhando caixas e enchendo um caminhão. A noite chegou e ainda não haviam terminado, mas já estavam cansados demais para continuar. Faltava levar pouca coisa: várias gavetas vazias, que ficaram empilhadas num dos quartos, o estrado de uma cama, o esqueleto de um armário, caixas com livros didáticos e aqueles cacarecos que niguém sabe onde guardar e que sempre sobram no final de uma mudança.

Moving Boxes in a Living Room

A família resolveu dormir no chão de um dos quartos, com alguma roupa de cama que haviam reservado para forrar o assoalho e continuar a mudança no dia seguinte. Entretanto, com o movimento da mudança, as duas garotas, filhas do casal, não conseguiram dormir logo. Ficaram acordadas até tarde conversando. Uma delas, ainda estava tentando dormir, quando ouviu um barulhinho vindo da cozinha. Com o ouvido tão perto do chão, ela ouviu os passos no piso de madeira. Ficou quieta.

Aquelas pisadas, que ora se afastavam ora se aproximavam, entrou no quarto onde a família quase toda dormia. E foi assim, pela claridade da luz da rua, que entrava pela janela sem cortinas, que a garota viu os pés e parte das pernas do ladrão, que deu meia volta no quarto e saiu.

Briefcase and Legs

No dia seguinte ninguém parou de comentar. Um ladrão havia sim entrado na casa, por uma janela esquecida aberta, mas não deve ter entendido nada do que viu. Possivelmente pensou: que casa estranha! Pilhas de gavetas sem nada dentro, cozinha sem fogão, sem geladeira, quartos sem camas e uma família inteira dormindo no chão da casa bacana. Não roubou nada, pois não havia o que roubar e saiu da mesma forma com que entrou!

Algo parecido aconteceu na minha casa. Minha irmã havia chegado tarde de uma festa e ainda não estava dormindo quando viu duas mãos chapadas no vidro da janela de seu quarto. Sem fazer barulho, ela saiu da cama e foi engatinhando pelo corredor comprido até o quarto dos meus pais. Acordou meu pai e ele foi até o quintal, sem fazer barulho, levando consigo as bombinhas em forma de palito de fósforo que guardava para este tipo de ocasião.

Waking up early

No quintal, meu pai viu o ladrão escondido atrás de um barco que havia comprado para reformar. No chão, estavam os remos. Meu pai se aproximou do ladrão por trás, sem ser visto, e com um dos remos, deu uma "palmada" no indivíduo, que tomou o maior susto e saiu correndo. Meu pai soltou umas duas bombinhas cujo ruído se parece com tiros de arma de fogo, para garantir. No dia seguinte, descobrimos que, na fuga, o ladrão deixou cair seus documentos e pôde ser identificado.

Mas isso tudo foi num tempo que os ladrões não eram tão brabos quanto os atuais. Mas os de hoje também podem se dar mal. Não faz muito tempo que eu estava num ônibus atravessando a ponte Rio-Niterói. Lógico, nessa pista não temos nenhuma parada em seus quase 14 quilômetros e dos dois lados só há o mar. No último ponto, antes do ônibus começar a atravessar a ponte, um grupo de pivetinhos e pivetões entrou.

Mal começamos a cruzar a baía, os garotos anunciaram o assalto. O mais velho parecia ser ainda menor de idade, uns 16 ou 17 anos, e o mais novo devia ter uns 7 ou 8 anos. Em silêncio, os passageiros entregaram suas carteiras, relógios e objetos de valor, inclusive eu, enquanto o ônibus seguia o seu caminho. Todos os objetos roubados iam sendo guardados numa mochila, que o menorzinho deles carregava.

Backpack

O grupo de ladrões ficou alguns minutos na frente do ônibus, controlando os passageiros até que o veículo terminasse a travessia. Quando os pivetes saíram do ônibus, os passageiros suspiraram aliviados, mas foram logo interrompidos por um homem que estava sentado na primeira poltrona lá na frente, que começou a rir alto: o pivetinho havia esquecido a mochila no ônibus!

Além de cada um pegar de volta o que era seu, ainda haviam outros objetos possivelmente de outros roubos, que foram entregues ao motorista.

Abaixo, um vídeo de um ladrão que também se deu mal. É muito engraçado. Vale a pena ver.


Vídeo: lodelahiti

Continue Reading
5 comentários

Os Caminhos da Liberdade

quinta-feira, 12 de novembro de 2009 by Leila Franca


Hoje eu estava lendo no Globo sobre o protesto dos estudantes da UnB, onde vários alunos e alunas usavam trajes mínimos, contando inclusive com a participação de estudantes completamente despidos. Entretanto, não li em nenhum lugar sobre a reação das pessoas em relação a forma com que foi feito este protesto.

Não sou uma pessoa moralista, mas sem dúvida a visão de uma pessoa completamente nua pode causar um impacto se formos pegos desprevenidos.

Eu me lembro que uma vez fui a um acampamento com um grupo grande de amigos. O local, uma praia no estado do Rio de Janeiro, ficava cheio de barracas de outros campistas, mas depois de um ou dois dias, todo mundo já se conhecia.

Tomávamos banho numa espécie de chuveiro ao ar livre. De tardinha havia até fila. Numa tarde, enquanto eu e minhas amigas aguardávamos para tomar banho, o que fazíamos vestidas em nossos biquinis, fomos pegas de surpresa quando um rapaz tirou a roupa toda e ficou nu na frente de todos os que esperavam na fila.

Rindo muito, nós garotas, voltamos para a barraca sem tomar banho. Alguma coisa na maneira como fomos criadas não nos deixou permanecer ali diante daquele rapaz coberto apenas por espuma. Ele agia com naturalidade, concentrado no banho, mas não conseguimos ficar na platéia.

Group of Friends Camping

Neste mesmo lugar, não me lembro se no mesmo ou em outro verão, fizemos amizade com todos como sempre e era muito comum irmos à cidade passear depois do dia de praia. Eu e mais dois amigos andávamos na areia até a estrada onde esperávamos o ônibus, mas neste dia, uma senhora de uns 50 anos, que já conhecíamos da praia, vinha vindo em seu carro e nos ofereceu carona. Aceitamos.

Minha amiga e o irmão dela foram no banco de trás e eu (logo eu!) fui na frente. Já estávamos conversando animadamente quando reparei que a mulher estava usando somente uma túnica de croche, sem nada por baixo. Digo, ela não usava nenhuma roupa além da túnica, nem sutiã nem calçinha e dava pra ver tudo! Eu olhei para trás e arregalei os olhos para os meus amigos, mas eles não entenderam o que eu queria dizer e, lógico, eu não podia falar!

Fiquei pensando: e se o carro escangalhasse? Se furasse um pneu? Mas que idéia! É cada uma que me aparece! Será que ela havia esquecido de vestir as calças? Será que achava confortável? (eu não acharia!) Suspirei de alívio ao sair daquele carro.

Numa outra ocasião, fui num caixa eletrônico com meu marido. Enquanto ele fazia lá aquele ritual de colocar e tirar cartão, esperar papelzinho, conferir extrato etc, uma senhora que usava o caixa ao lado simplesmente arriou as calças compridas e fez xixi na lata de lixo!!! Eu cutucava o meu marido pra ele ver aquela cena surreal, mas ele estava tão concentrado nas contas que só disse "espera aí" e não olhou! Novamente eu fui a única espectadora de uma cena incomum.

Couple at ATM

Mas tudo é relativo. Sempre há os dois lados da moeda. Eu tinha 17 anos (bota tempo nisso!) quando fui à Brasília com uma amiga, a tia e a prima dela. A tia e a prima moravam em Brasília, tinham vindo ao Rio visitar minha amiga e na volta nos convidaram para conhecermos aquela cidade. Fomos muito bem.

Chegando em Brasília passamos a semana passeando e no fim de semana resolvemos sair à noite. Eu e minha amiga estávamos acostumadas com a liberdade no Rio de Janeiro e nem nos passou pela cabeça que a prima, de Brasília, não tinha os mesmos hábitos. Nos divertimos a noite toda e voltamos para casa às 4h da madrugada. O problema é que a prima da minha amiga nunca tinha chegado em casa àquela hora e ela não nos disse nada a respeito. Por isso, não adiantou tentarmos entrar sem fazer barulho. O pai dela estava nos esperando.

Eu e minha amiga fomos colocadas pra fora daquela casa. Sentamos no meio-fio da rua, com as mochilas nas costas e esperamos o dia amanhecer. Minha amiga resolveu ficar na casa de outros conhecidos e eu resolvi voltar sozinha para o Rio de Janeiro.

Contei o dinheiro que ainda tinha no bolso e dava certinho pra passagem. Só que eu esqueci, que teria 30 horas de viagem pela frente... não poderia comer! No ônibus, além de mim, só haviam mais dois passageiros. Um homem e uma senhora. Eu fiquei na frente, o homem ficou no meio do ônibus e a senhora estava quase no último assento. Ninguém falou uma palavra na viagem.

Bus

Tarde da noite, o ônibus parou no meio do cerrado e dois guardas rodoviários entraram, olharam tudo e perguntaram. "Quem é que está com esta menina? "(eu). Silêncio. Eu só fingindo que estava dormindo, com um olho fechado e outro aberto. "Não tem ninguém com esta menina?" Falaram alto. Eu me mexi e olhei pra eles. Quando eu ia abrir a boca pra falar, ouvi a mulher lá no fundo do ônibus dizendo: "Está comigo!"

Os guardas foram embora e eu suspirei de alívio. No dia seguinte, ainda em viagem, o ônibus parou e eu fui falar com a mulher. Contei a história toda e ela me pagou um almoço. Ela foi mais uma das pessoas que não soube sequer o nome, mas nunca vou esquecer.


Continue Reading
4 comentários

Existem dias em que tudo acontece

domingo, 25 de outubro de 2009 by Leila Franca


Roupa mancha, cachorro foge, perfume vira, pneu fura, gás acaba, comida queima, alça arrebenta, corta o dedo e o relógio não desperta.

Chuveiro queima, vaso quebra, pagamento atrasa, falta luz, quebra copo, computador não liga, voo atrasa, chave quebra, remédio acaba e o telefone fica mudo.

Queima o dedo, caneta falha, televisão queima, empregada falta, carro esquenta, corda arrebenta, óculos quebra, lixo vira e perde a lente.

Martela o dedo, arranha o carro, perde a chave, biscoito vira, frigideira gruda, porta não fecha, ônibus enguiça, pilha acaba, chinelo arrebenta e o fecho da calça escangalha.

Lâmpada queima, guarda-chuva não abre, pisa em cocô, guarda multa, perde a carteira, vizinho reclama, pia entope, celular some e chega atrasado no trabalho.

Sapato aperta, janela não abre, dente quebra, conta atrasa, trânsito engarrafa, dá topada, unha quebra, perde o trem, fósforo molha e a impressora falha.

Pisa em chiclete, perde brinco, elevador enguiça, ar condicionado não gela, torneira não fecha, fogão não acende, café acaba e o passarinho, lá do alto, faz cocô em seu paletó.

Essas coisas sempre acontecem em sequência de duas ou três juntas nos dias em que estamos mais ocupados. Parecem querer nos testar, mas na verdade o que fazem é deixar nosso dia com gosto de vitória.



PS.: Querido leitor, se quiser acrescentar alguma coisa nesta lista, poderá usar o espaço para os comentários.

Continue Reading
5 comentários

A Suspeita

sexta-feira, 23 de outubro de 2009 by Leila Franca


Houve um tempo em que trabalhei durante vários meses numa área de risco na cidade do Rio de Janeiro. Entende-se aqui como "área de risco" um lugar geralmente dentro ou perto de uma comunidade carente onde há frequentes confrontos entre a polícia e bandidos, como também entre grupos rivais. Um lugar perigoso.

Nos primeiros dias, confesso que me senti bastante desconfortável. Esta sensação devia ser facilmente percebida, porque só de olhar as pessoas do lugar já sabiam que eu não era dali. Pareciam me olhar com desconfiança, o que me deixava ainda mais sem jeito. Era um outro mundo, uma outra realidade. E eu andava sem saber o que iria acontecer a cada passo.

Mas a gente se acostuma com tudo. Em poucas semanas, eu já sabia andar rapidamente pelos corredores, becos e ruelas. Por onde entrar para desaparecer instantaneamente da rua principal. Já me acostumara com a falta de privacidade dos moradores e não me inibia em cortar caminho pela casa dos outros, passando por baixo de roupas penduradas na corda, me esquivando de porcos que se regalavam em poças de lama, espantando nuvens de moscas e assustando os cachorros que apareciam no caminho.

Pela minha natureza comunicativa, fiz logo amizade sobretudo com adolescentes e crianças. Mas também aprendi novos reflexos e outras formas de comunicação próprias daquele lugar. Para que lado e a que distância deveria olhar com atenção. Um código que eu nem sabia que existia.

Costumava ficar de papo furado com a garotada, fazia brincadeiras. Pegava lápis e papel e desenhava seus rostos. Depois pedia que me desenhassem também. Caía todo mundo na gargalhada com os resultados. Me ofereciam doces e biscoitos, uma flauta pra tocar. A cada dia a gurizada aumentava em volta de mim.

Mas com a violência aumentando assustadoramente, decidi parar de trabalhar naquele lugar. Saí dali com lágrimas nos olhos ao me despedir dos garotos. Muitas vezes quando passava pela avenida principal e olhava em direção daquela comunidade, eu constatava que mesmo de longe eu ainda reconhecia muitas das casas humildes e vielas. Eu ainda sabia o que dava aonde.

E tudo passou. Então, já trabalhando em outro lugar da cidade, uma vez eu estava voltando para casa num ônibus, às 11 da noite. Devia haver uns 15 ou 20 passageiros no ônibus. Todos cansados, em silêncio. Ao passar por uma região perigosíssima, uma das muitas apelidadas de "Faixas de Gaza" da cidade, todo mundo ficava meio apreensivo dentro do coletivo. Tudo o que queriamos era que o ônibus passasse rápido por ali. Era óbvio que, no fundo, todo mundo estava com medo. Rezávamos para que nada fizesse o ônibus parar. Não-para não-para não-para!!!

Só que nesta noite o ônibus parou. Um olhou pra cara do outro e aguardou o que poderia acontecer em seguida. Naquele horário era tudo possível. Ouvimos as vozes, os passos, as gírias de um grupo de uns 10 entrando no ônibus e tomando o corredor central. Ninguém tinha coragem de olhar de frente. De rabo de olho, eu vi as pernas magras, os chinelos de dedo, os pés esparramados. Todo mundo esperando pra saber o que ia acontecer. Atrevida, olhei pra cara deles -- bem na hora que olharam pra minha cara também!

2 segundos se passaram até que um deles, o que usava um gorro que cobria as sobrancelhas com um brasão do Flamengo, se abriu num sorrisão: "AEEEEÊ QUEM TAÍ!!!!" Eu os reconheci imediatamente! Eram os garotos que eu conheci naquela "área de risco" onde trabalhei!!! Eles, que eram uns guris, já estavam uns homens! Que surpresa! Me reconheceram! Afinal era ótimo! Já não estava mais com medo!

Todos sentaram em volta de mim fazendo arruaça. Era o jeito deles. Uns botavam meio corpo pra fora da janela do ônibus gritando "UHUUU!!!" Começaram a batucar na lataria do veículo. "E AÊ?! NUM PARECEU MAR LÁ NAS PARADA?" (Só falavam gritando.) "PARECE LÁ! TÁ MANERO!!!". Começamos a lembrar das brincadeiras e caímos na risada. Um deles me falou que ainda guardava meus desenhos.

Eles foram embora dois pontos depois e o ônibus seguiu viagem tranquilo. A zona de perigo ficara para trás. Então eu percebi que os outros passageiros estavam me olhando de forma esquisita. Estavam todos ainda paranóicos. Continuavam desconfortáveis, evitavam meu olhar. Uma coisa estranha que eu não sei nem explicar. Até que entendi. Eu, euzinha, passei a ser a “suspeita”!!! E foi assim que por meia hora eu me senti como se eu fosse um dos garotos da faixa de Gaza.


Continue Reading
4 comentários
Related Posts with Thumbnails

Picapp Widget