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O melhor da minha vida

quinta-feira, 20 de maio de 2010 by Leila Franca

Antes de morrer meu pai me falou que a melhor coisa que aconteceu em sua vida foi conhecer minha mãe. Eu entendo isso porque foi a parceria dos dois como casal que os permitiu realizar todos os seus sonhos.


De vez em quando me pego pensando nisso. O que terá sido a melhor coisa que aconteceu na minha vida? Acho que foi o Escotismo. O movimento bandeirante foi fundamental para que eu me definisse como pessoa.

Scouts Celebrate 100th Anniversary Of First Camp

A promessa que fazemos ao entrar para o grupo escoteiro ou bandeirante, inclui a expressão "Sempre alerta", que é muito importante no decorrer da vida. Se estivermos alertas não perderemos oportunidades, não nos deixamos enganar, percebemos quando alguém não está bem, sentimos a aproximação do perigo, observamos as mudanças etc.

Os valores presentes nesse movimento formam as leis bandeirantes. No dia da promessa, cada bandeirante escolhe uma das leis para se dedicar mais durante a vida. Eu escolhi uma lei que dizia "A bandeirante é econômica". A partir daí, a economia haveria de ser meu ponto forte. Não preciso dizer o quanto foi importante ter escolhido essa lei.

Os acampamentos, os amigos, o companheirismo também me ensinaram muito. Os amigos que fiz neste período continuaram sendo amigos por muitos anos e ainda estão em contato até hoje. Nos acampamentos a gente aprende a admirar a vida simples.

Wet Shoes

Deixamos de lado o que costumamos chamar de "frescura". Dormimos no chão, montamos mesas e outras pequenas peças com bambú e galhos secos, armamos fogueiras e aprendemos cuidar da natureza. No final, descobrimos que é preciso bem pouco para se sentir bem e ser feliz.

O respeito pelas chefes, a hierarquia no grupo, as brincadeiras e competições. Todas essas coisas vão nos acrescentando valores muito positivos. Eu era monitora da minha patrulha: a patrulha Romã. Hasteávamos a bandeira, cantávamos juntas, ganhávamos medalhas e uma estrelinha por ano no grupo. Meu uniforme era desbotado como jeans de tanto lavar, tinha um bom número de medalhinhas penduradas no peito e um cinto que tinha corda, canivete e outras utilidades.

Boy Scouts Plant Flags At Cemetery For Memorial Day

Também participávamos de atividades voluntárias com prazer. Íamos em áreas carentes ajudar, vendíamos biscoitos para que o dinheiro fosse empregado em orfanatos e hospitais. Fiquei emocionada quando uma vez vi bandeirantes americanas vendendo biscoitos no metrô de Boston. Bandeirante em qualquer lugar do mundo é igual e faz a mesma coisa.

The New Lord Mayor Of London Participates In The Annual Parade

Tínhamos também encontros com grupos de outros estados e até de outros países. Nesses encontros trocávamos presentes. Pequenas coisas, muito parecido com os jogadores de futebol quando trocam as camisas no final da partida. Trocávamos lenços e outras peças do uniforme.

Hoje em dia é difícil ver bandeirantes e escoteiros pelas ruas. Eles ainda existem, mas não se vê mais como antigamente. É uma pena, pois é um movimento que pode ajudar muito a formação de uma pessoa. O que aprendi como bandeirante foi muito importante em minha vida. Meu gosto pelas viagens e aventuras, minha simplicidade, minha maneira de lidar com o dinheiro, meu cuidado com a natureza e os animais, minha maneira de olhar o próximo como igual, vem tudo daí.

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Uma (breve) história de amor

sábado, 15 de maio de 2010 by Leila Franca

Não sou uma pessoa romântica. Por isso quase não conto histórias de amor, mas obviamente conheço muitas delas. Essa daqui aconteceu comigo há muito tempo atrás.


Eu era uma adolescente que ia fazer a primeira viagem sem a companhia dos pais. Era um acampamento com o grupo das bandeirantes. Devíamos ser umas 10 garotas acompanhadas pelas duas chefes. Fomos para as montanhas no interior do estado do Rio de Janeiro.

Já cheguei à conclusão que todo acampamento tem que ter uma visita inesperada, no mínimo estranha ou diferente. Sendo assim, logo no primeiro dia em que armamos as 3 barracas no pátio de uma escola rural, apareceram nossos eventuais visitantes.

Trails

Eram três rapazes paulistas que chegaram à cavalo. O que havia diferente nessa visita é que os rapazes tinham vindo lá do interior de São Paulo a galope! Sim, eles tinham percorrido centenas de quilômetros em seus cavalos.

Eles pediram consentimento à nossa chefe para acampar junto de nós e ela concordou. E assim formamos um grupo curioso de ciganos. Com a barulheira que fizemos na primeira noite, cantando e tocando violão ao redor da fogueira, acabamos por chamar a atenção dos habitantes daquele pacato lugar.

Mas, calma! A história de amor não se deu com nenhum dos três aventureiros, que foram apenas nossos alegres companheiros naqueles poucos dias. Apenas não pude deixar de incluí-los nessa narrativa, tendo em vista que eles foram dessas pessoas que temos de fato uma alegria em conhecer.

O amor aconteceu na segunda noite, quando novamente armamos uma enorme fogueira e além de nós campistas, pessoas da redondeza também se aproximaram e se sentaram para ouvir a música do violão. Eu não sabia que era amor. Sabia apenas que podia ver, através das labaredas mais altas, o rosto de um rapazinho que devia ter a minha idade.

Silhouette of young man and woman

Ele era muito sério e calado. Pelo seu jeito e suas roupas pude ver que era um garoto de cidade grande. Não trocamos uma palavra. Mas quando todos foram embora, pude ver que ele se foi montado num cavalo bem tratado, na companhia de um empregado ou capataz.

No dia seguinte, nova reunião em torno da fogueira. Dessa vez o garoto sentou-se ao meu lado. E o único progresso que fizemos foi que soube seu nome e ele o meu. Nada mais.

Three horseback riders racing across a field

Chegou o dia em que íamos embora pra casa. Os três paulistas a cavalo se despediram e sumiram no final da estrada. Nunca mais os vi. Uma caminhonete iria nos levar até a rodoviária em seguida e eu estava aflita porque não poderia me despedir do garoto que conhecera através da fogueira.

Subimos na carroceria da caminhonete e eu com o coração apertado. Ninguém à vista. A caminhonete começou a descer a estrada de barro e só não ganhou velocidade por causa dos buracos. Já estávamos nos afastando do local do acampamento quando vi um cavalo em disparada vindo atrás de nós. A caminhonete aumentou a velocidade e o cavaleiro chicoteava o animal, até se aproximar de nós.

Cowboy riding horse

Não era ninguém conhecido. Mas o homem a cavalo se esticou todo para me entregar algo. Eu me estiquei também, quase caindo e peguei o objeto! Era uma caixinha de fósforos! O cavaleiro diminuiu a velocidade e sumiu da nossa vista e eu fiquei com a caixinha nas mãos. Abri e dentro dela havia um número de telefone!

Apesar de termos conversado pelo telefone algumas vezes, não nos encontramos mais. Éramos muito novos e morávamos em bairros distantes. Passaram-se 3 anos.

Por acaso surgiu uma oportunidade de voltar àquele lugar, só que dessa vez fiz a viagem acompanhada dos meus pais e ficamos hospedados num hotel. À tardinha, fui caminhando até o lugar onde 3 anos antes tínhamos feito o acampamento. Ninguém ali. Fiquei olhando o mato por um tempo e quando a noite começou a cair resolvi voltar ao hotel.

Mal dei os primeiros passos e ouvi o barulho de uma moto se aproximando. Cheguei pro canto quando percebi que a moto ia passar por mim. Mas quando o motoqueiro passou, eu olhei.

Era ele!!! Nos encontramos no mesmo lugar 3 anos depois!

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Amor de Carnaval

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010 by Leila Franca


Com o calor, o verão, o sol, a praia e a sensação de liberdade do Carnaval, é muito comum que namoros e romances comecem nestes dias de folia e feriado. É fácil imaginar que vários desses relacionamentos que iniciaram durante a empolgação da festa se transformem também em cinzas na quarta-feira, principalmente entre os mais jovens. Comigo não foi diferente.

Só me interessei por brincar o carnaval num clube até os 15 ou 16 anos. Preferia muito mais acampar na praia que liga as cidades de Cabo Frio e Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, no Rio de Janeiro. Ia pra lá todo verão. Mas brincando ou não, todo carnaval era a mesma coisa: namorado novo. Nunca durava muito, pois a maioria das vezes morávamos muito longe um do outro. Quando o carnaval acabava, cada um voltava para a sua cidade e nunca mais víamos as pessoas que tinha conhecido durante o acampamento.

beach

Mas de todos os namoros de verão e de carnaval, houve um que eu não pude esquecer. Os três rapazes paulistas chegaram na praia e armaram a barraca logo depois que eu e meus amigos também havíamos chegado. Assim, vizinhos de barraca, logo nos conhecemos. Era sábado de carnaval.

É óbvio que com os passeios, a praia e a música, no grupo cada um arranjou seu par para o namoro rápido de carnaval. Eu tinha 17 anos e o rapaz paulista do interior tinha 18. Não é preciso dizer que foi um namoro super agradável em seus 4 dias de duração. Ficamos apaixonados!

Na hora da despedida, quarta-feira de cinzas, o rapaz me surpreendeu com uma promessa: "Esse ano vou fazer o curso vestibular. Vou tentar medicina! Vou me inscrever na melhor faculdade do Rio de Janeiro! Vou morar lá, então podemos ficar juntos outra vez!"

Pausa.

(E então meninas? O que vocês fariam, aos 17 anos, diante dessa promessa?)

Silhouette of kissing couple sitting at table on sea shore, side view

Passou-se um ano. Era carnaval outra vez. Lá fui eu pra mesma praia, com o mesmo grupo de amigos. Eu estava feliz da vida porque tinha passado no vestibular e as aulas começariam logo.

Interessante que nesse acampamento um dos amigos do grupo (aliás, meu melhor amigo) tinha viajado depois e quando chegou na cidade foi difícil nos encontrar no carnaval. De brincadeira, ele perguntou a um motoqueiro que conheceu: "Por acaso você conhece a Leila? Uma baixinha, lourinha, de óculos..." tereré tororó... e falou tanto de mim, que o rapaz ficou curioso e saiu à minha procura com meu amigo na garupa pela cidade.

Two men riding a motorbike

Acabaram me encontrando! Por coincidência, conversando com o motoqueiro, descobri que ele morava num bairro próximo ao meu, também tinha feito vestibular aquele ano e iria estudar na mesma faculdade que eu, no mesmo curso!

Acabou o carnaval e na quarta-feira de cinzas o motoqueiro já me telefonou e me chamou para sair. Era óbvio que aquele relacionamento iria se transformar num namoro, como realmente aconteceu.

Fazia uma semana que as aulas tinham começado. O telefone tocou. Era o paulista. Ele me contava, feliz, que havia conseguido tudo que havia prometido! Senti uma dor no coração. Tive de dizer a ele que estava namorando outro. Achei melhor não vê-lo.

Apesar de tudo, acredito que este paulista foi um homem de valor que conheci e que não vou mais esquecer. Pena que éramos tão jovens, que foi tão breve. Pena que era carnaval.

Willets comb the surfline at daybreak - Cayo Costa State Park, Florida


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Bolo afrodisíaco

sexta-feira, 27 de novembro de 2009 by Leila Franca


Minha mãe não me ensinou a cozinhar porque, dizia ela: "Não te criei pra ficar na cozinha!" Mas, obviamente, esta idéia era um pouco fora da realidade. Todo mundo tem que comer, senão morre! E sem saber fazer absolutamente nada, ficamos na dependência de que outros o façam ou temos que comprar tudo pronto, o que não é muito recomendável.

Woman cutting vegetables in kitchen

A primeira vez que precisei cozinhar foi num acampamento do grupo de bandeirantes que eu fazia parte. A chefe dividiu as equipes e eu fiquei encarregada da cozinha. Se ela soubesse de meus dotes culinários, teria feito outra divisão! O macarrão que preparei tornou-se uma coisa só, branca amarelada, que não saiu nem por decreto do fundo da panela (que tivemos que jogar fora, uma vez que era absolutamente impossível lavar). Assim, rapidamente fui afastada da função e continuei sem poder aprender nem o be-a-bá da cozinha.

Tent at a campsite

Num outro acampamento, onde um ladrão nos roubou quase tudo o que levamos para comer e para fazer a comida, fui fazer um peixe com minha amiga Gelita (aquela do artigo "Sobrevivi!!!") O fogão eram duas pedras com uns gravetinhos pegando fogo no meio. Não sabíamos o que fazer para cozinhar a cabeça e o rabo do peixe, que estavam apoiados nas pedras, já que não tínhamos uma grelha. No final, quando um lado do peixe estava começando a queimar e estávamos fazendo um verdadeiro contorcionismo para virar o peixe para o outro lado, começou a chover forte! A chuva apagou o fogo e molhou nosso único fósforo. O jeito foi comer o lado queimado do peixe, com cabeça, rabo e o outro lado sem cozinhar.

Fire pit

Mas a hora que me dava mais vontade de cozinhar era assim tarde da noite, quando eu e minha irmã já tínhamos comido todas as besteiras da casa, mas queríamos mais alguma coisinha pra distrair enquanto víamos um filme. Uma vez cismei de fazer batata frita. Eu não tinha nem idéia de quantas batatas devia pegar pra fazer uma porção. Então peguei quase dois quilos de batata e fiquei um tempão descascando e picando. Depois uma eternidade fritando. Acho que eu já estava meio que dormindo porque depois de toda aquela batata pronta, cometi um erro imperdoável: coloquei açúcar naquilo tudo.

Living Green

Sem perceber a besteira que havia feito, me sentei na sala com uma das várias travessas de batata frita que preparei. Mas bastou que experimentássemos a primeira batata para descobrir o problema! E agora??? Resignada, lá fui eu pra cozinha com todas aquelas batatas e comecei a lavar cada uma na pia pra tirar aquele açúcar. Depois tive a paciência de secar cada batata frita com um paninho de prato. Provei uma e ainda tinha gosto de açúcar... Então resolvi colocar bastante sal, mas um punhadão mesmo pra cobrir aquele gosto. Conclusão óbvia: ficou horrível. De manhã minha mãe não entendeu nada com todas aquelas batatas espalhadas por toda parte na cozinha.

Depois tive um namorado que me pediu, coitado, que eu fizesse alguma coisa doce na cozinha, quem sabe um quindim? Em vez de comprar um daqueles pacotinhos que já vem semi-pronto, resolvi seguir uma receita que levava uns 24 ovos. Nem pensei que aquilo tudo tinha que caber dentro de alguma forma. No final, a coisa transbordou dentro do forno e começou a pegar fogo e o meu namorado teve que correr no carro e pegar um extintor de incêndio pra apagar a fogueira que se formou dentro do forno. Nunca mais faço quindim!

Fire inside brick oven

Só quando casei é que fui fazer feijão pela primeira vez. Nem me passou pela cabeça que eu teria que primeiro catar o feijão. Não catei nada e o resultado foi que só quando coloquei o feijão no prato é que fui ver as pedras e os gravetos cozidos. Tive que jogar tudo fora, mas não me dei por vencida. Fiz outro feijão, desta vez catando bem antes de pôr na panela. Depois de pronto, eu já me achando o máximo, resolvi fazer um suco de manga. Descasquei a manga rosa e quando ia cortar os pedaços para colocar no liquidificador, a manga, escorregadia, escapou das minhas mãos feito um peixe e vuupt! caiu dentro da panela do feijão!

Mango with water drop on white background, close-up

Está bem... pelo menos doce de leite em lata eu tenho que saber fazer!!! Hellooô!!! Coloquei a lata de leite condensado pra cozinhar na panela de água fervendo, mas não sei o que eu fiz (acho que não esperei esfriar para abrir). O doce de leite fervendo espirrou pra fora da lata e grudou todo no teto da cozinha!

Eu estava realmente triste pela minha falta de habilidade culinária e fui contar pra minha amiga Mary o que andava fazendo na cozinha. Mas a Mary estava mais desesperada que eu. Ela, recém-casada, resolveu fazer galinha no jantar para o maridinho. Mas não sei o que deu na cabeça dela: comprou uma galinha viva e levou pro apartamento decorado com capricho. Sabendo menos que eu, Mary pegou uma faca e começou a perseguir a galinha que corria apavorada no apartamento. O resultado é que ela teve que tirar as cortinas, o tapete, trocar o forro do sofá etc e nunca mais quis saber de fazer galinha.

Chicken Crossing the Road

Nos dias de hoje, ainda prefiro pegar o telefone e pedir uma pizza ou comprar comida a quilo num restaurante, mas aprendi a fazer um bolo de chocolate tão maravilhoso, mas tão maravilhoso... que foi até considerado afrodisíaco.

Meu amigo Gil tinha vindo da Europa com a esposa estrangeira e me convidou pra passar uns dias em Salvador, na Ilha de Itaparica, onde tinha uma casa. Claro que fui. Não tinha ninguém na ilha. Parecia que éramos só nós. Era a praia e eu, eu e a praia. Mas um dia de tarde resolvi fazer um bolo de chocolate.

Chocolate Cake Slice with Raspberries

Dessa vez eu caprichei. Caprichei mesmo e o bolo ficou uma delícia. Todos comeram até não poder mais! Uns dois meses depois, Gil me telefona lá da Europa dizendo que, depois de vários anos casados, sua esposa havia ficado grávida! "Foi aquele bolo!!!", ele disse. E eu pensei comigo mesma: acho que aprendi a cozinhar!

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Os Caminhos da Liberdade

quinta-feira, 12 de novembro de 2009 by Leila Franca


Hoje eu estava lendo no Globo sobre o protesto dos estudantes da UnB, onde vários alunos e alunas usavam trajes mínimos, contando inclusive com a participação de estudantes completamente despidos. Entretanto, não li em nenhum lugar sobre a reação das pessoas em relação a forma com que foi feito este protesto.

Não sou uma pessoa moralista, mas sem dúvida a visão de uma pessoa completamente nua pode causar um impacto se formos pegos desprevenidos.

Eu me lembro que uma vez fui a um acampamento com um grupo grande de amigos. O local, uma praia no estado do Rio de Janeiro, ficava cheio de barracas de outros campistas, mas depois de um ou dois dias, todo mundo já se conhecia.

Tomávamos banho numa espécie de chuveiro ao ar livre. De tardinha havia até fila. Numa tarde, enquanto eu e minhas amigas aguardávamos para tomar banho, o que fazíamos vestidas em nossos biquinis, fomos pegas de surpresa quando um rapaz tirou a roupa toda e ficou nu na frente de todos os que esperavam na fila.

Rindo muito, nós garotas, voltamos para a barraca sem tomar banho. Alguma coisa na maneira como fomos criadas não nos deixou permanecer ali diante daquele rapaz coberto apenas por espuma. Ele agia com naturalidade, concentrado no banho, mas não conseguimos ficar na platéia.

Group of Friends Camping

Neste mesmo lugar, não me lembro se no mesmo ou em outro verão, fizemos amizade com todos como sempre e era muito comum irmos à cidade passear depois do dia de praia. Eu e mais dois amigos andávamos na areia até a estrada onde esperávamos o ônibus, mas neste dia, uma senhora de uns 50 anos, que já conhecíamos da praia, vinha vindo em seu carro e nos ofereceu carona. Aceitamos.

Minha amiga e o irmão dela foram no banco de trás e eu (logo eu!) fui na frente. Já estávamos conversando animadamente quando reparei que a mulher estava usando somente uma túnica de croche, sem nada por baixo. Digo, ela não usava nenhuma roupa além da túnica, nem sutiã nem calçinha e dava pra ver tudo! Eu olhei para trás e arregalei os olhos para os meus amigos, mas eles não entenderam o que eu queria dizer e, lógico, eu não podia falar!

Fiquei pensando: e se o carro escangalhasse? Se furasse um pneu? Mas que idéia! É cada uma que me aparece! Será que ela havia esquecido de vestir as calças? Será que achava confortável? (eu não acharia!) Suspirei de alívio ao sair daquele carro.

Numa outra ocasião, fui num caixa eletrônico com meu marido. Enquanto ele fazia lá aquele ritual de colocar e tirar cartão, esperar papelzinho, conferir extrato etc, uma senhora que usava o caixa ao lado simplesmente arriou as calças compridas e fez xixi na lata de lixo!!! Eu cutucava o meu marido pra ele ver aquela cena surreal, mas ele estava tão concentrado nas contas que só disse "espera aí" e não olhou! Novamente eu fui a única espectadora de uma cena incomum.

Couple at ATM

Mas tudo é relativo. Sempre há os dois lados da moeda. Eu tinha 17 anos (bota tempo nisso!) quando fui à Brasília com uma amiga, a tia e a prima dela. A tia e a prima moravam em Brasília, tinham vindo ao Rio visitar minha amiga e na volta nos convidaram para conhecermos aquela cidade. Fomos muito bem.

Chegando em Brasília passamos a semana passeando e no fim de semana resolvemos sair à noite. Eu e minha amiga estávamos acostumadas com a liberdade no Rio de Janeiro e nem nos passou pela cabeça que a prima, de Brasília, não tinha os mesmos hábitos. Nos divertimos a noite toda e voltamos para casa às 4h da madrugada. O problema é que a prima da minha amiga nunca tinha chegado em casa àquela hora e ela não nos disse nada a respeito. Por isso, não adiantou tentarmos entrar sem fazer barulho. O pai dela estava nos esperando.

Eu e minha amiga fomos colocadas pra fora daquela casa. Sentamos no meio-fio da rua, com as mochilas nas costas e esperamos o dia amanhecer. Minha amiga resolveu ficar na casa de outros conhecidos e eu resolvi voltar sozinha para o Rio de Janeiro.

Contei o dinheiro que ainda tinha no bolso e dava certinho pra passagem. Só que eu esqueci, que teria 30 horas de viagem pela frente... não poderia comer! No ônibus, além de mim, só haviam mais dois passageiros. Um homem e uma senhora. Eu fiquei na frente, o homem ficou no meio do ônibus e a senhora estava quase no último assento. Ninguém falou uma palavra na viagem.

Bus

Tarde da noite, o ônibus parou no meio do cerrado e dois guardas rodoviários entraram, olharam tudo e perguntaram. "Quem é que está com esta menina? "(eu). Silêncio. Eu só fingindo que estava dormindo, com um olho fechado e outro aberto. "Não tem ninguém com esta menina?" Falaram alto. Eu me mexi e olhei pra eles. Quando eu ia abrir a boca pra falar, ouvi a mulher lá no fundo do ônibus dizendo: "Está comigo!"

Os guardas foram embora e eu suspirei de alívio. No dia seguinte, ainda em viagem, o ônibus parou e eu fui falar com a mulher. Contei a história toda e ela me pagou um almoço. Ela foi mais uma das pessoas que não soube sequer o nome, mas nunca vou esquecer.


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Sobrevivi!!!

terça-feira, 3 de novembro de 2009 by Leila Franca


Ontem quando li no Globo a notícia sobre o tubarão bocão, de quase 6 metros de comprimento, encontrado em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro, lembrei de um episódio que vivi naquelas águas claras.

Aconteceu numa época em que ainda podíamos acampar na areia da praia, que então era quase deserta. Chegamos durante a noite enquanto chovia. A escuridão era quase total. Armamos as barracas na base do tato e fomos logo dormir.

O dia seguinte amanheceu maravilhoso. O céu azul sem nuvens prometia um bom dia de praia. Eu e minha amiga Gelita nos levantamos cedo e ficamos à toa na areia a observar o mar. Ainda estava cedo para entrar na água cristalina, que devia estar fria.

Feet walking on the beach

Logo, mais uma pessoa do grupo acordou e veio se juntar a nós duas. Era um rapaz morava em Brasília, de visita ao Rio de Janeiro, e que não estava acostumado a despertar assim tão perto do mar. Ele tinha um apelido engraçado: Marcha Lenta ou, mais simplesmente, Lento.

Eu e Gelita queríamos levar o Marcha Lenta pra passear, para que ele conhecesse melhor as praias e a cidade. De onde estávamos, olhando para a praia, víamos um morro à direita que ia diminuindo de altura até se transformar numa pontinha que desaparecia no mar. Não sei quem teve a idéia de irmos até aquela ponta, que parecia ser a entrada daquela enseada. Partimos, sem avisar a ninguém, pois todos estavam ainda dormindo.

Aquele morro, que de longe parecia fofo e verdinho, não era tão amigo visto de perto: sua vegetação consistia de cactus e outros espinhos, que só paravam de crescer quando encontravam as rochas e o mar. Por isso fomos caminhando pelas pedras. Eu e Gelita usávamos apenas biquinis, o Lento uma bermuda. Devia ser umas 8 horas da manhã e nem havíamos tomado café. Pensávamos que o passeio seria curto e logo estaríamos de volta ao acampamento.

Já um pouco afastados da praia, vimos pescadores cercando peixes enormes numa rede. Eles batiam nos peixes com os remos dos barcos e a ponto da água do mar ficar vermelha. Horrorizados com o espetáculo, em vez de voltarmos para a praia, seguimos em frente, ainda procurando alcançar a pontinha que marcava a entrada da enseada.

Observamos que dois homens também caminhavam nas pedras quase junto de nós. Pela pele bronzeada e o jeito de falar, achei que provavelmente seriam simples moradores daquele lugar. O caminho começava a ficar difícil, as pedras escorregadias e por várias vezes eles me deram a mão para ajudar a pular de uma pedra pra outra.

Waves crashing on rocky shore

Já estávamos andando há um bom tempo e nada de chegar à pontinha daquele morro. Era mais longe do que imaginávamos. O sol estava queimando nossa pele e as pedras já estavam bem quentes. Começamos a sentir fome, sede e, para piorar, encontramos diante de nós um tremendo paredão, uma falha na rocha, quase impossível de passar. Resolvemos voltar ao acampamento, mas no meio do caminho descobrimos que a maré tinha começado a subir e não era mais possível passar por onde tínhamos passado antes, a menos que caminhássemos sobre os espinhos!

Decidimos dar meia volta e de novo estávamos diante daquele paredão onde as ondas batiam lá embaixo. Neste caminho observamos que um peixe muito grande nos acompanhava junto das pedras. Ele ia e vinha e só víamos aquela sombra enorme correr naquelas águas limpas. Não sei que tipo de peixe era, sabia apenas que qualquer um de nós caberia perfeitamente em sua barriga! (Tenho suspeitas de que se tratava de algum parente remoto do tubarão bocão encontrado lá essa semana!) Dava medo. Nem pensar em voltar à praia nadando! O jeito era encarar o paredão.

Com os pés virados de lado, pisando em degraus mínimos de pedra quebradiça e abraçados àquela rocha fervente conseguimos alcançar o outro lado. O Marcha Lenta teve azar. No meio do caminho ele foi atacado por um casal de maribondos que saiu dos espinhos. Ele não podia nem espantar os insetos, que picaram à vontade suas costas.

O sol estava abrasador naquela hora mais quente do dia. Procurávamos alguma praia entre aquelas rochas ou então um caminho que pudéssemos trilhar entre os espinhos. Os dois homens que inicialmente nos acompanhavam a pouca distância agora haviam se juntado a nós, em grupo. Houve um momento, que nós paramos pra descansar numa pedra mais chata e um deles encontrou uma linha de pesca. Enrolou a linha grossa de nylon em cada uma de suas mãos e testou sua resistência. Eu e Gelita olhamos uma pra cara da outra e por um instante ficamos com medo. Afinal eles eram estranhos.

Finalmente chegamos naquela pontinha do morro. Na nossa frente, mar aberto. Pensávamos que seríamos capazes de ver a cidade depois daquela curva, mas estávamos enganados. Só haviam mais pedras, espinhos, cactus e o mar. Já não podíamos mais ver a praia onde nossos amigos acampados deviam estar nos procurando. Estávamos numa enrascada.

Wave Crashing Onto Rocky Shore

De longe vimos um barco grande de pescadores. Eles também nos viram, mas não podiam chegar perto por causa das pedras. Acenamos e eles responderam abanando os braços. Acho que perceberam o problema em que estávamos metidos e pudemos ver que eles apontavam para um determinado lugar no meio daquelas pedras. Sem entender direito o recado, continuamos a andar. Acho que cada um de nós estava se segurando pra não passar mal. O sol estava queimando muito e não tínhamos comido ou bebido nada. Devia ser umas 3 da tarde àquela altura.

Depois de muito andar naquelas pedras, já estávamos começando a ficar desesperados quando encontramos um obstáculo ainda maior. Diante de nós havia uma enorme falha na pedra, que formava uma gruta escura. As ondas vinham e entravam com força por aquele enorme buraco feito na rocha. Não havia lugar para passar. Acima de nós, ainda os espinhos.

Paramos pra pensar o que devíamos fazer. Quando as ondas recuavam, deixavam de fora algumas pedras negras de limo, que logo eram cobertas com o chegar de uma nova massa de água. Resolvemos dar as mãos, formando uma corrente humana, e pisar nestas pedras escorregadias no recuo, entre uma onda e outra. E lá fomos nós.

Mas não deu tempo! Eu, Gelita e Marcha Lenta recebemos o impacto de uma onda enquanto ainda estávamos pisando nas rochas negras dentro da gruta. A onda passou por cima de nós e encheu aquele buraco até o teto com a gente dentro. Foi assustador. Com a força da água, meus pés não conseguiram se firmar sobre a rocha e por alguns instantes eu me vi flutuando naquele azul sem fim. Mas cada um dos meus pulsos estava seguro com força pelas mãos daqueles dois homens, que provaram estar ali para nos ajudar. Quando a água recuou mais uma vez, eu pensei que não fosse aguentar. Era muito forte! A pressão nos meus pulsos aumentou e assim não fui levada pela força do mar.

Ao sairmos dali, estávamos mais assustados do que tudo. Ainda andamos bastante até que chegamos a uma ponta onde havia uma relva macia e um caminhozinho feito por gente, em vez dos espinhos. O caminho sumia no meio de árvores, arbustos - sombra finalmente! - e um milharal! Corremos pra pegar algumas espigas ainda verdes, mas não conseguimos nem provar: o som do latido de vários cães fez com que saíssemos correndo pela mata!

Nos separamos. Eu e Gelita corremos para um lado, Marcha Lenta e os dois homens para o outro. Ofegantes, minha amiga e eu nos escondemos atrás de um pedregulho. Além de muito queimadas pelo sol, estávamos agora sujas de terra e cheias de arranhões. E agora? Eu pensei que minha amiga ia desmaiar. Havíamos perdido as espigas de milho na corrida e não tínhamos a menor idéia de onde estávamos e o que fazer para sair dali.

Ainda andamos sem rumo pela mata até que ouvimos vozes nos chamando. Era o Marcha Lenta e os dois homens que nos ajudaram. Eles foram ter com o dono daquela roça e explicaram o que havia acontecido conosco. O proprietário do lugar mostrou o caminho que deveríamos tomar para voltar à cidade e ainda nos deu uma bolsa cheia de espigas.

Chegamos ao acampamento ao anoitecer. Todos estavam aflitos nos procurando desde cedo. Quando nos despedimos daqueles homens, agradecendo a ajuda, um deles falou: "Quando vimos vocês seguindo aquele caminho das pedras, nós resolvemos ir atrás. A gente sabe que é perigoso, mas não queríamos incomodar. A gente só achava que vocês iam acabar precisando de ajuda!" E não é que eles acertaram? Foi uma surpresa descobrir que eles estavam lá só para nos ajudar e proteger. Não sei o que teria acontecido conosco se não fossem aqueles dois!

É interessante que a gente cria um elo especial com as pessoas com quem compartilhamos estes momentos. Nunca mais vi ou encontrei aqueles dois homens, mas jamais os esquecerei. Encontrei uma vez o Marcha Lenta num show de rock e anos depois, caminhando pelo centro do Rio de Janeiro, vi a Gelita através da vidraça de um banco onde ela era uma das gerentes. Entrei para falar com ela, que me recebeu com um abraço. Duvido que algum dos clientes pudesse sequer imaginar os assuntos que nós duas estaríamos a conversar.

Sunset over ocean

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