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Mostrando postagens com marcador mar. Mostrar todas as postagens
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"Não é porque moro no interior, que tenho que gostar de cavalo, de boi e de cheiro de estrume", disse uma amiga minha há pouco tempo. E eu pensei: realmente, o fato de eu morar perto da praia não quer dizer que eu tenha que gostar de barco ou de mar. Aliás, detesto barcos de qualquer tipo.
Desde o tempo que eu era bandeirante e o grupo foi convidado para um passeio num barco da Marinha, passei a detestar viagens marítimas. O problema não foi exatamente o barco ou os marinheiros, mas sim a tempestade com ventania que caiu durante o passeio, formando ondas enormes e fazendo a embarcação balançar pra frente, pra trás, para um lado e para o outro.
Tivemos que ficar na parte de baixo do barco e a visão do mar pela janelinha não era nem um pouco amigável. Entre raios, relâmpagos e trovões, víamos um mar crespo cinza escuro de meter medo. As ondas vinham, cobriam as janelas e por alguns instantes a vista da janela era do fundo do mar e eu tinha a sensação de que o passeio era mesmo de submarino.
Houve também uma vez, que eu peguei um aerobarco para atravessar a baía de Guanabara e chegar mais rápido ao centro da cidade. Estava chovendo e o mar, novamente, cinzento. Eu estava grávida de quase 9 meses. Era a última consulta do pré-natal antes de ter o bebê. No meio da baía, bem perto da ponte Rio-Niterói, sentimos um cheiro de fumaça e não deu outra: o barco parou. Uma outra embarcação veio nos resgatar poucos minutos depois. Quando a porta do barco abriu, fiquei besta de ver como os homens correram na frente para sair primeiro.
Quando chegou a minha vez de sair é que fui ver o tamanho do barco que veio nos resgatar. O degrauzinho que eu teria de subir com aquele barrigão de 9 meses ia de 50 cm a 1,20m mais ou menos porque os dois barcos não paravam de balançar e obviamente não balançavam sincronizadamente. Enquanto um subia o outro descia e por isso o outro barco ficava mais baixo ou bem mais alto. Não tinha jeito de ir para o outro lado. Olhei em volta e vi que do aerobarco que eu estava saía um rolo de fumaça preta. O pior é que um aerobarco não foi feito pra gente andar do lado de fora, então não havia lugar para pisar ou para se segurar.
Um marinheiro, do outro barco, estendeu as mãos para me alcançar. E assim ele me suspendeu pelos braços e eu fui para o outro barco. Quase tive o filho ali mesmo.
Por causa dessas e outras aventuras, eu sempre preferi ver o mar nas manhãs claras de sol, na maré baixa. Perto da praia onde eu morava havia uma ilhota que tinha apenas uma casa com um pinheiro alto exatamente no meio. Era uma ilha particular. Quando eu tinha uns 15 anos, eu e minha amiga Lúcia descobrimos que batendo com uma pedra num poste de ferro exatamente três vezes, um barco saía da ilha e vinha até a praia. O poste era a "campainha" da ilha. Várias vezes eu e Lúcia batemos no poste e saímos correndo.
Às vezes saíamos nadando e chegávamos bem perto da ilha, mas nunca fomos até a casa, que parecia estar sempre fechada. Alguém nos dissera que lá só ficava o caseiro. Entretanto, gostávamos de ver a ilha da praia e imaginar seus mistérios. Até um dia, eu já com os meus 18 anos, fui convidada para ir a uma festa nesta ilha. Como eu ia perder esta festa? É lógico que eu vou!
Comidas, bebidas e convidados iriam em seus barcos até a ilha. Arranjei uma vaga num barco pequeno, quase um bote. Cada um levaria alguma coisa para festa. Minha amiga Gelita levaria as empadinhas. Eu resolvi fazer brigadeiros. Passei a tarde enrolando os brigadeirinhos, morrendo de vontade de comer, mas deixei tudo para a festa. A mãe da Gelita fez aquelas empadinhas maravilhosas, que só ela sabe fazer.
Tudo pronto, fomos para a praia encontrar nossos amigos. Todo mundo arrumado e o barco balançando na beirada do cais. Devia ser umas 9 horas da noite. O barco só aguentava cinco de cada vez. Então fui eu, Gelita e mais 3 amigos que iam remando (não tinha motor não!). Cada um levava uma bandeja com as comidas. As bebidas teriam que ir em outra viagem.
Eu não largava a bandeja de brigadeiros, que planejei comer pelo menos a metade. As empadinhas da Gelita também eram imperdíveis. A gente morrendo de fome, mas não comemos nada antes, pois queríamos que tudo ficasse para a festa.
Dois rapazes foram remando até certo ponto, mas quando estávamos mais ou menos no meio do caminho até a ilha o que não estava remando resolveu remar um pouco e eles tiveram que trocar de lugar. Foi aí que aconteceu o acidente...
No fundo do bote havia uma rolha enorme, de uns 10 cm de diâmetro. O rapaz quando se levantou pisou na rolha e ela saiu do lugar, indo pra debaixo do barco! A água começou a entrar com vontade por aquele buracão! Um dos rapazes pulou na água pra tentar achar a rolha e tampar o buraco, mas no escuro foi impossível. Eu, Gelita e os outros dois tivemos que pular na água também porque o dono do barco queria tentar segurar o barco para que não fosse para o fundo.
Quase chorei quando vi os brigadeiros e as empadinhas desaparecendo na água... Eu e Gelita tiramos os sapatos e começamos a nadar de roupa e tudo. Naquele escuro e dava o maior medo... Chegamos na praia morrendo de frio. Os rapazes ainda ficaram um pouco lá na água tentando salvar o barco. Desistimos da festa e voltamos para casa para tirar aquela roupa molhada.
Ontem quando li no Globo a notícia sobre o tubarão bocão, de quase 6 metros de comprimento, encontrado em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro, lembrei de um episódio que vivi naquelas águas claras.
Aconteceu numa época em que ainda podíamos acampar na areia da praia, que então era quase deserta. Chegamos durante a noite enquanto chovia. A escuridão era quase total. Armamos as barracas na base do tato e fomos logo dormir.
O dia seguinte amanheceu maravilhoso. O céu azul sem nuvens prometia um bom dia de praia. Eu e minha amiga Gelita nos levantamos cedo e ficamos à toa na areia a observar o mar. Ainda estava cedo para entrar na água cristalina, que devia estar fria.
Logo, mais uma pessoa do grupo acordou e veio se juntar a nós duas. Era um rapaz morava em Brasília, de visita ao Rio de Janeiro, e que não estava acostumado a despertar assim tão perto do mar. Ele tinha um apelido engraçado: Marcha Lenta ou, mais simplesmente, Lento.
Eu e Gelita queríamos levar o Marcha Lenta pra passear, para que ele conhecesse melhor as praias e a cidade. De onde estávamos, olhando para a praia, víamos um morro à direita que ia diminuindo de altura até se transformar numa pontinha que desaparecia no mar. Não sei quem teve a idéia de irmos até aquela ponta, que parecia ser a entrada daquela enseada. Partimos, sem avisar a ninguém, pois todos estavam ainda dormindo.
Aquele morro, que de longe parecia fofo e verdinho, não era tão amigo visto de perto: sua vegetação consistia de cactus e outros espinhos, que só paravam de crescer quando encontravam as rochas e o mar. Por isso fomos caminhando pelas pedras. Eu e Gelita usávamos apenas biquinis, o Lento uma bermuda. Devia ser umas 8 horas da manhã e nem havíamos tomado café. Pensávamos que o passeio seria curto e logo estaríamos de volta ao acampamento.
Já um pouco afastados da praia, vimos pescadores cercando peixes enormes numa rede. Eles batiam nos peixes com os remos dos barcos e a ponto da água do mar ficar vermelha. Horrorizados com o espetáculo, em vez de voltarmos para a praia, seguimos em frente, ainda procurando alcançar a pontinha que marcava a entrada da enseada.
Observamos que dois homens também caminhavam nas pedras quase junto de nós. Pela pele bronzeada e o jeito de falar, achei que provavelmente seriam simples moradores daquele lugar. O caminho começava a ficar difícil, as pedras escorregadias e por várias vezes eles me deram a mão para ajudar a pular de uma pedra pra outra.
Já estávamos andando há um bom tempo e nada de chegar à pontinha daquele morro. Era mais longe do que imaginávamos. O sol estava queimando nossa pele e as pedras já estavam bem quentes. Começamos a sentir fome, sede e, para piorar, encontramos diante de nós um tremendo paredão, uma falha na rocha, quase impossível de passar. Resolvemos voltar ao acampamento, mas no meio do caminho descobrimos que a maré tinha começado a subir e não era mais possível passar por onde tínhamos passado antes, a menos que caminhássemos sobre os espinhos!
Decidimos dar meia volta e de novo estávamos diante daquele paredão onde as ondas batiam lá embaixo. Neste caminho observamos que um peixe muito grande nos acompanhava junto das pedras. Ele ia e vinha e só víamos aquela sombra enorme correr naquelas águas limpas. Não sei que tipo de peixe era, sabia apenas que qualquer um de nós caberia perfeitamente em sua barriga! (Tenho suspeitas de que se tratava de algum parente remoto do tubarão bocão encontrado lá essa semana!) Dava medo. Nem pensar em voltar à praia nadando! O jeito era encarar o paredão.
Com os pés virados de lado, pisando em degraus mínimos de pedra quebradiça e abraçados àquela rocha fervente conseguimos alcançar o outro lado. O Marcha Lenta teve azar. No meio do caminho ele foi atacado por um casal de maribondos que saiu dos espinhos. Ele não podia nem espantar os insetos, que picaram à vontade suas costas.
O sol estava abrasador naquela hora mais quente do dia. Procurávamos alguma praia entre aquelas rochas ou então um caminho que pudéssemos trilhar entre os espinhos. Os dois homens que inicialmente nos acompanhavam a pouca distância agora haviam se juntado a nós, em grupo. Houve um momento, que nós paramos pra descansar numa pedra mais chata e um deles encontrou uma linha de pesca. Enrolou a linha grossa de nylon em cada uma de suas mãos e testou sua resistência. Eu e Gelita olhamos uma pra cara da outra e por um instante ficamos com medo. Afinal eles eram estranhos.
Finalmente chegamos naquela pontinha do morro. Na nossa frente, mar aberto. Pensávamos que seríamos capazes de ver a cidade depois daquela curva, mas estávamos enganados. Só haviam mais pedras, espinhos, cactus e o mar. Já não podíamos mais ver a praia onde nossos amigos acampados deviam estar nos procurando. Estávamos numa enrascada.
De longe vimos um barco grande de pescadores. Eles também nos viram, mas não podiam chegar perto por causa das pedras. Acenamos e eles responderam abanando os braços. Acho que perceberam o problema em que estávamos metidos e pudemos ver que eles apontavam para um determinado lugar no meio daquelas pedras. Sem entender direito o recado, continuamos a andar. Acho que cada um de nós estava se segurando pra não passar mal. O sol estava queimando muito e não tínhamos comido ou bebido nada. Devia ser umas 3 da tarde àquela altura.
Depois de muito andar naquelas pedras, já estávamos começando a ficar desesperados quando encontramos um obstáculo ainda maior. Diante de nós havia uma enorme falha na pedra, que formava uma gruta escura. As ondas vinham e entravam com força por aquele enorme buraco feito na rocha. Não havia lugar para passar. Acima de nós, ainda os espinhos.
Paramos pra pensar o que devíamos fazer. Quando as ondas recuavam, deixavam de fora algumas pedras negras de limo, que logo eram cobertas com o chegar de uma nova massa de água. Resolvemos dar as mãos, formando uma corrente humana, e pisar nestas pedras escorregadias no recuo, entre uma onda e outra. E lá fomos nós.
Mas não deu tempo! Eu, Gelita e Marcha Lenta recebemos o impacto de uma onda enquanto ainda estávamos pisando nas rochas negras dentro da gruta. A onda passou por cima de nós e encheu aquele buraco até o teto com a gente dentro. Foi assustador. Com a força da água, meus pés não conseguiram se firmar sobre a rocha e por alguns instantes eu me vi flutuando naquele azul sem fim. Mas cada um dos meus pulsos estava seguro com força pelas mãos daqueles dois homens, que provaram estar ali para nos ajudar. Quando a água recuou mais uma vez, eu pensei que não fosse aguentar. Era muito forte! A pressão nos meus pulsos aumentou e assim não fui levada pela força do mar.
Ao sairmos dali, estávamos mais assustados do que tudo. Ainda andamos bastante até que chegamos a uma ponta onde havia uma relva macia e um caminhozinho feito por gente, em vez dos espinhos. O caminho sumia no meio de árvores, arbustos - sombra finalmente! - e um milharal! Corremos pra pegar algumas espigas ainda verdes, mas não conseguimos nem provar: o som do latido de vários cães fez com que saíssemos correndo pela mata!
Nos separamos. Eu e Gelita corremos para um lado, Marcha Lenta e os dois homens para o outro. Ofegantes, minha amiga e eu nos escondemos atrás de um pedregulho. Além de muito queimadas pelo sol, estávamos agora sujas de terra e cheias de arranhões. E agora? Eu pensei que minha amiga ia desmaiar. Havíamos perdido as espigas de milho na corrida e não tínhamos a menor idéia de onde estávamos e o que fazer para sair dali.
Ainda andamos sem rumo pela mata até que ouvimos vozes nos chamando. Era o Marcha Lenta e os dois homens que nos ajudaram. Eles foram ter com o dono daquela roça e explicaram o que havia acontecido conosco. O proprietário do lugar mostrou o caminho que deveríamos tomar para voltar à cidade e ainda nos deu uma bolsa cheia de espigas.
Chegamos ao acampamento ao anoitecer. Todos estavam aflitos nos procurando desde cedo. Quando nos despedimos daqueles homens, agradecendo a ajuda, um deles falou: "Quando vimos vocês seguindo aquele caminho das pedras, nós resolvemos ir atrás. A gente sabe que é perigoso, mas não queríamos incomodar. A gente só achava que vocês iam acabar precisando de ajuda!" E não é que eles acertaram? Foi uma surpresa descobrir que eles estavam lá só para nos ajudar e proteger. Não sei o que teria acontecido conosco se não fossem aqueles dois!
É interessante que a gente cria um elo especial com as pessoas com quem compartilhamos estes momentos. Nunca mais vi ou encontrei aqueles dois homens, mas jamais os esquecerei. Encontrei uma vez o Marcha Lenta num show de rock e anos depois, caminhando pelo centro do Rio de Janeiro, vi a Gelita através da vidraça de um banco onde ela era uma das gerentes. Entrei para falar com ela, que me recebeu com um abraço. Duvido que algum dos clientes pudesse sequer imaginar os assuntos que nós duas estaríamos a conversar.
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