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Num cantinho, o violão

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009 by Leila Franca


Quando chegava a temporada de férias, eu sempre providenciava um revezamento entre praia e campo, mas em qualquer lugar que eu fosse, tinha que levar meu violão. Eu nem tocava lá grandes coisas, mas gostava de ficar sozinha num canto dedilhando, experimentando novas sequências de acordes em qualquer lugar onde não houvesse barulho.

Woman walking on beach with guitar on back, low section

Lembro que uma vez num acampamento na praia todo mundo saiu à tarde para tomar sorvete na cidade e eu fiquei tomando conta da barraca e das nossas coisas. Olhando em volta, só havia eu e o mar. Era exato nessas horas que eu gostava de pegar o violão e... ta-na-ni-ta-na-na...

As notas, os sons, iam embora com o vento, ninguém me escutava naquela praia vazia... Bem, isso era o que eu pensava. Um dia tocando na porta da barraca, vi que de um buraquinho na areia branca, surgiu um sirizinho. Até pensei que ele ia vir pra cima de mim, mas isso não aconteceu. O sirizinho ficou lá só me olhando, paradinho, com aqueles olhinhos pretos, prestando atenção. Eu comecei a tocar pra ele, é lógico.

Ghost crab :: Ocypode cordimana

O que aconteceu em seguida foi surpreendente: mais um sirizinho apareceu e mais outro... mais outro... Quando eu vi, devia ter mais de 50 sirizinhos em volta de mim. Quando eu parava de tocar, todos desapareciam instantaneamente! Entravam rápido nos buraquinhos da areia. Então eu começava a tocar de novo e eles iam aparecendo um a um até que ficava a areia cheia deles. Todos me olhando. Eu nunca pensei que siri gostasse de música. Ainda mais da minha!

Man playing a guitar, close-up

É lógico que eu também tinha uns amigos que tocavam muito! Eles tinham até uma banda e tocavam em eventos. Eu e as meninas que faziam parte do grupo sempre íamos em suas apresentações. Os rapazes da banda sabiam que eu e outras meninas também tocavam. Não tínhamos a mesma prática que eles, mas tocávamos sim. Então uma vez nos fizeram uma surpresa: fomos chamadas no palco e convidadas a tocar uma música num lugar que estava cheio de gente!

Eu não sabia onde metia a cara! Fui para o palco já tremendo da cabeça aos pés. A música que escolhemos: "Proud Mary", do Creedence. Acho que toquei tudo errado, mas todo mundo bateu palmas assim mesmo.

Teenage (14-16) band (focus on girl singing in foreground)

Tive o prazer de visitar uma exposição de guitarras no Museu de Arte de Boston, que se chamava "Dangerous Curves" (Curvas Perigosas) e assim, fiquei a meio metro de distância de instrumentos famosíssimos. Lado a lado estavam o violão que John Lennon comprou quando tinha 17 anos, o primeiro que ele teve, a guitarra que Jimmy Hendrix usou no festival de Woodstock, uma guitarra de Elvis Presley, uma de Erick Clapton e uma de Kurt Cobain, do Nirvana. Fiquei muito emocionada diante destes objetos.

Guitar

Onde eu ia sempre tinha uma guitarra ou violão. Uma vez subi na cobertura de um prédio em Boston com dois amigos pois eles tinham de fazer uma filmagem para um trabalho de faculdade. Quando chegamos no alto do prédio, havia um americano tocando violão sozinho lá em cima. Por coincidência, o rapaz estava usando uma camisa da seleção brasileira! O rapaz até ajudou meus amigos na filmagem, enquanto eu fiquei tocando o violão dele. E assim descobri a emoção de tocar no alto de um edifício!

Thinkstock Single Image Set

Depois parei de tocar, passou o tempo. Um amigo me pediu meu violão emprestado para uma viagem e o esqueceu no trem. Pensei que eu nunca mais fosse tocar. Pouco tempo atrás, um dos meus amigos, o que tocava mais do que todos, faleceu. Eu ganhei o violão dele, que agora fica aqui num cantinho do meu quarto. De vez em quando eu toco.

PS.: Abaixo um vídeo com a música "Proud Mary", pra quem não conhece (duvido) ou não se lembra qual é.


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A armadilha

sexta-feira, 23 de outubro de 2009 by Leila Franca


Sempre gostei de mudar a arrumação da casa. Tirar uma mesa daqui e botar ali, colocar cama e sofás em outra posição, mudar os objetos decorativos, etc. Apesar de continuarmos com as mesmas coisas (bem, podemos comprar uma coisinha ou outra, não é?), o ambiente fica diferente, saímos um pouco da rotina e os cômodos da casa ganham um ar de novidade.

Young woman standing on chair adjusting curtains

Só que isso nem sempre é fácil. Arrastar móveis, tirar tudo de dentro pra ficar mais leve, passar com uma mesa por uma porta estreita pode ser trabalhoso. O pior é quando tem que desmontar. Com preguiça de pegar a chave de fenda e deixar o móvel em pedacinhos, muitas vezes acabamos por empurrá-lo montado mesmo, ainda que isso não seja recomendável. E ainda há o caso daqueles móveis que se desmontar nunca mais serão os mesmos.

Muitas vezes as mulheres ficam entusiasmadas com sua nova idéia para a arrumação, mas dependem da boa vontade de maridos, namorados, irmãos ou pais para ajudar na parte pesada. Eles, que preferiam muito mais ficar com a casa do jeito que sempre esteve, não gostam nem um pouco de ter que largar o jornal, o computador, o jogo ou a preguiça do domingo pra ficar arrastando cama, levantando colchão, muito menos desarmando e armando armários. Tentam logo persuadir as mulheres a deixar a arrumação do jeito que está. Mas as mulheres, ansiosas, não irão se conformar com esta resposta tão pouco criativa.

Deixam passar alguns dias e sugerem novamente a mudança no domingo seguinte. Quem disse que o marido vai levantar da poltrona ou que o irmão vai largar o youtube pra ficar arrastando coisa pesada? Isso dá até briga! Mas não adianta falar pra ela que vai incomodar os vizinhos com o barulho, que está calor e ai de quem se atrever a dizer que com a nova arrumação a casa ficará pior!

Cansada dessa situação, eu -- mulher independente e dona de si, aproveitei um dia em que todos haviam saído para empurrar os móveis do jeito que eu bem entendesse! Ia ficar bom e pronto! Meu pai sempre me falou que as mulheres têm força física, sim. Então decidi pôr em prática este ensinamento e lá fui eu mudar tudo.

Resolvi tirar tudo de dentro de um quarto e colocar em outro. Mudar de quarto seria divertido. Depois de tirar todas as coisas pequenas, até um colchão, sobrou um gigante: um armário duplex com 8 portas. O certo seria desmontar o dinossauro. Até tentei, mas quem disse que os parafusos se moviam? Aquilo tinha sido apertado com uma força descomunal. Estavam ali há anos. Eu não ia conseguir tirar aqueles parafusos. Ia ter que arrastar o armário montado mesmo.

Peguei a trena e medi o armário, depois medi a porta. Dava pra passar certinho. Tirei tudo de dentro do armário e coloquei na sala. Não era pouca coisa. Ia ter é coisa pra guardar depois, mas não importava. Entrei num espacinho entre o armário e a parede (como é bom ser pequena!), apoiei minhas costas e fiz força com os joelhos e os braços. O armário se moveu alguns centímetros do lugar. Pouca coisa, mas se moveu. "Vou conseguir!", pensei. De centímetro em centímetro vou levar esse grandão até a sala.

Mais um pouco de força e desta vez o armário andou bem um palmo! O negócio era tirar o bicho da posição inicial. Depois era mole! Estava animada. Mais esforço e o armário andou quase 1 metro! Agora um pouco pro lado. Desencostou da parede. Encaixou na porta. Agora era só ir reto! Sempre fui boa de manobra, era hoje que eu ia tirar o armário da vaga! Fui, fui, até que... parou!!! Isso mesmo, parou. Fiz mais um pouco de força, mas o armário não saiu mais do lugar.

Uma pequena protuberância na parte superior do armário, um defeito qualquer na madeira, fez com que ele ficasse entalado na porta! Não passava mais! Ah! Que raiva! Nesse ponto eu ainda não tinha reparado o problema em que me encontrava. Empurrar o armário pesadão era uma coisa, puxá-lo era outra completamente diferente!!! Puxar o armário de volta era impossível. Ainda mais que ele estava preso na porta!

Conclusão: eu estava presa no quarto!!!

E eu estava num prédio e não era um apartamento térreo. Não havia ninguém em casa. Tão cedo ninguém ia chegar. Na sala, o telefone começou a tocar e eu não podia atender. Não tinha ficado nada dentro do quarto que pudesse me socorrer. Cheguei na janela pra ver se eu via alguém. Ninguém. Não tinha ninguém!

Cadê a velhinha que ficava sempre me espiando? Devia ter saído. A janela dela estava fechada. Vi duas garotas passando ao longe. Gritei: "Ei!!!!" Elas olharam... pro lado errado e continuaram andando! Mas que droga!!! Que raiva! Maldita arrumação! Socorro!!!

Olhei pra baixo, pra fachada do prédio pra ver se dava pra botar meu pé em algum lugar, mas não tinha nada, era lisinho. Ainda mais eu tinha medo de cair. Estava o maior calor naquele quarto. Fiquei logo morrendo de sede, com vontade de ir no banheiro, meu cigarro estava comigo, mas o fósforo estava na sala!!!

Fiquei mais de uma hora ali de castigo até que minha família chegou de volta e me libertou da armadilha doméstica que construí para mim.


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