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Ontem o carinho de todos comigo me fez pensar nos amigos - os antigos também. Os amigos do tempo que havia um clube perto da minha casa que apesar do pomposo nome "Iate Club", era chamado de "Barracão". O clube havia recebido este apelido porque possuía um salão de madeira construído sobre o mar onde haviam bailes, sempre às quartas-feiras. O problema é que minha mãe não me deixava ir! A fama do clube não era lá das melhores, mas as festas eram conhecidas pela animação. Por isso, eu tinha que ir nem que fosse escondido.
Houve uma noite que fingi que ia dormir. Me vesti pra sair e deitei debaixo das cobertas. Assim que a casa ficou em silêncio, me levantei, peguei colchas e cobertores e coloquei na cama, amassando daqui e dali até parecer com a forma do meu corpo. Ainda fiz uma "cabeça" e coloquei sobre o travesseiro e caprichei colocando uma peruca de carnaval sobre aquela bola de pano. Depois cobri tudo com o cobertor. Ficou ótimo! Pulei a janela e em dois minutos eu estava na rua, rindo comigo mesma.
Fui até a casa da minha amiga Lúcia. Nós já tínhamos combinado tudo. Assim que cheguei no portão pude ver que ela estava pulando a janela de seu quarto, que dava pra frente da casa. Mas com a Lúcia a coisa ia ser mais complicada, pois o quarto dela ficava no segundo andar. Ela caminhou com cuidado pelo telhado sobre a varanda e olhou pra baixo. Era alto pra pular. Foi para o lado da casa, onde havia um barranco e as árvores cresciam bem junto do telhado. Ela se agarrou nos galhos de uma árvorezinha que crescia na beirada e pulou. A árvore não aguentou seu peso e quebrou. Só vi a Lúcia caindo com os galhos e um monte de barro despencando, mas ela só sujou um pouco a calça.
Descemos a rua, pegamos um ônibus e meia hora depois já estávamos no Barracão! O baile como sempre animadíssimo. Dançamos a noite toda. Às vezes eu ficava até com medo daquela estrutura toda desabar e cairmos todos no mar, pois o barracão balançava inteiro com tanta gente dançando e marcando compasso.
O baile ia de 11 da noite às 4 da madrugada. Por isso, na volta tivemos de ir a pé para casa, pois não havia ônibus àquela hora. Eram uns 3 quilômetros de caminhada. Começamos a andar e logo nos juntamos a duas outras garotas, que conhecíamos e assim fomos em passos rápidos pelas ruas desertas e escuras.
Estávamos bem no meio do caminho quando um automóvel se aproximou de nós e começou a andar devagar nos acompanhando. Não vi quantos rapazes estavam lá dentro, mas começaram a falar com a gente. Muito sérias de medo, continuamos a andar olhando pra frente. O carro avançou um pouco mais e parou uns 50 metros adiante. Atravessamos a rua e ficamos sem saber se devíamos voltar nos afastando de casa ou seguir para frente nos aproximando do ponto onde o carro havia parado. Naquela hora desejei estar dormindo na minha cama no lugar daqueles cobertores!
O carro começou a voltar de marcha ré. Intuitivamente, partimos em direção contrária, como se fôssemos voltar para o clube, mas poucos passos depois, ouvimos uma voz que vinha do pilotis de um prédio. "Entrem aqui! Venham pra cá!" Não sei porque, mas confiamos instantaneamente naquela voz e entramos rápido no prédio onde não conhecíamos ninguém. Perto da portaria, havia um rapazinho magrinho, que nos falou: "Fiquem aqui um pouco até que aquele carro vá embora. Eles vão pensar que vocês moram aqui." Esperamos.
Uns quinze minutos depois nos atrevemos a olhar. Não havia ninguém na rua. "Vou levar vocês em casa", disse o garoto, que devia ter a nossa idade. E assim caminhamos de volta para nossas casas e ele nos acompanhou a pé. Já na porta da minha casa, disse ao garoto para encontrar com a gente no dia seguinte na praia. Contei a ele o lugar onde costumávamos ficar.
E assim nos encontramos na praia, não somente naquele dia, como também nos cinco anos seguintes, quando ele foi morar em outro país.
Não sei como, reconhecemos a voz de um amigo. Até hoje, pra mim é um mistério o porque confiamos nele naquela noite. Sabemos intuitivamente quando é um amigo que nos chama, qual é o seu tom e acreditamos em suas palavras.
A este amigo, que se chama Gil, que até hoje mantenho contato, e a todos os outros que conheci, dedico a música "A little help from my friends", cantada por Joe Cocker, no festival de Woodstock.
vídeo: ianhawdon
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