
Esse fim de semana aluguei os filmes da primeira temporada de Lost numa locadora porque perdi muitos episódios dessa primeira parte da série. Então assisti um capítulo chamado "The Moth" ("A Mariposa").
Nesse episódio, o Charlie, um viciado em drogas, acompanha o desenvolvimento de um casulo enquanto tenta controlar o seu vício. Ele entende que não adianta querer ajudar a mariposa a sair do seu invólucro, assim como ele encontrou seu momento exato em que estava pronto para abandonar as drogas.
Acredito que cada um de nós está aqui nesta vida para fazer uma grande descoberta pessoal. Descobrir aquilo que o impede de seguir em frente com mais rapidez. Muitas vezes não adianta querer ajudar, falar, com alguém que ainda não atingiu o seu momento.
É como o instante mágico da criança que dá seus primeiros passinhos sem se segurar. Estaremos por perto, mas não podemos adiantar o tempo de cada um.
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Quem me conhece sabe que toda vez que começo a contar alguma história ou explicar alguma coisa, tenho que ter em mãos papel e caneta. Eu não sei falar nada sem desenhar. Qualquer papelzinho serve. Então aquela coisa de "entendeu ou quer que eu desenhe?" nunca precisa ser dita porque eu sempre desenho!
Por gostar muito de escrever e desenhar é que fiz faculdade de jornalismo e arquitetura. Poucos entendem a combinação estranha, mas foi isso mesmo que fiz. Desenhar, pra mim, é tão importante quanto escrever, apesar de ter praticado mais a escrita profissionalmente.
Por isso, quando comecei com este blog, minha intenção era não só escrever, como também desenhar. Mas me faltava material adequado. Comprei algum este ano e apesar de ser pouca coisa, nesse mês o blog completa um ano, resolvi colocar em prática a segunda parte do meu plano inicial, ou seja, ilustrar minhas histórias com meus desenhos.
Obviamente não serão obras de arte nem desenhos acabados. Apenas croquis, rascunhos e rabiscos: a mesma coisa que faço quando estou apenas falando. Pode ser que o blog perca um pouco do colorido das fotos, mas acredito que acabará se tornando mais interessante a medida que poderei retratar exatamente o que estou escrevendo, em vez de contar apenas com imagens genéricas.
Assim vou começar. Vou dar a partida e espero desenvolvê-la em pleno voo. Espero que gostem.
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Ontem quando parei no posto de gasolina para abastecer o carro lembrei do meu pai. Enquanto muitos chegam e mandam encher o tanque ou exibem notas de 50 reais, ele não tinha dinheiro e sempre estava com o tanque do carro na reserva. Quando ia botar gasolina no carro levava notas miudas e muitas moedas.
Se fosse hoje, seria algo assim, por exemplo, chegar no posto e dizer:
"Por favor coloque aí 5 reais e 85 centavos de gasolina comum"... Sendo que nesses R$5,85, pelo menos 1 real seria em duas moedas de 50 centavos e os 85 em moedas de 10 e 5 centavos...
Às vezes ainda olhava dentro do carro - uma Brasília - e ainda achava mais algumas moedas.
"Pode botar mais 15 centavos!", completava. E o frentista ficava a vida inteira lá contando os trocadinhos...
Quando fiz 10 anos de idade, ganhei uma bicicleta no Natal. Fomos todos comprar a bicicleta no centro da cidade, no dia 23 de dezembro, quando as lojas fervilhavam de fregueses. Já era tarde quando fomos.
Andamos todo o Saara - as lojas da rua da Alfândega, Ouvidor, Uruguaiana, onde se concentrava o comércio naquela época. Não havia shoppings ainda. Mas as bicicletas eram caras. O dinheiro não dava. Por fim encontramos uma bicicleta e depois de contar todas as notas e moedas de nossos bolsos, o dinheiro que meus pais possuíam era exatamente o valor da bicicleta. Nem uma moeda a mais ou a menos.
Compramos a bicicleta e voltamos pra casa no fusca do meu pai naquela tempo. Mas enquanto estávamos todos alegres e falantes, ele dirigia sério e calado. Não deu outra: quando chegamos na avenida Brasil, a gasolina acabou! Dessa vez não havia um centavo sequer pra comprar o combustível, mas meu pai nos deixou no carro e saiu andando com um galão de plástico na mão.
Daqui a pouco ele voltou com a gasolina. Minha mãe queria saber o que ele tinha feito. Naquela época não havia cartão bancário muito menos cartão de crédito. Ele explicou: havia deixado sua carteira de identidade no posto, como garantia de pagamento, em troca da gasolina. No dia seguinte voltou no posto com o dinheiro (trocadinho) e pegou sua carteira de volta.
Os anos passaram. Uma vez minha mãe e minha irmã foram passar uns dias numa fazenda na serra. Meu pai as levou e depois foi buscar. No alto da serra havia acontecido um acidente grave no dia anterior e a pista ainda estava cheia de óleo dos veículos que se acidentaram. Foi numa curva fechada.
Meu pai derrapou e perdeu o controle do carro. Caiu no abismo, capotando muitas vezes, até parar, com as 4 rodas no ar. Com muita dificuldade conseguiu sair são e salvo de dentro do automóvel, que só não pegou fogo porque não tinha gasolina.
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Há muito tempo atrás tive um namorado, que antes de se tornar namorado, era meu amigo de colégio e de aventuras. Saíamos juntos, viajávamos juntos e nos víamos todos os dias. Da amizade para o namoro quase não houve diferença. Acho que nunca saímos a sós. A companhia de outros amigos era normal.
Mas houve um verão que fomos para uma cidade litorânea e nossos amigos não conseguiram ficar no mesmo lugar, que já estava cheio. Eles ficaram em outra cidadezinha, perto de onde estávamos. Quando chegou de noite, resolvemos ir caminhando pela areia da praia para encontrar o resto do grupo.
Tínhamos bem uns 6 quilômetros de praia semi-deserta pela frente. No início havia uma casa aqui, outra acolá, mas depois vinha um longo trecho que não tinha nenhuma construção, somente as dunas e o mar. A estrada se afastava e não havia iluminação. Somente a lua cheia, que já estava alta, aparecia entre as nuvens. De longe víamos as luzes da cidade que pretendíamos alcançar.
Com a vista acostumada ao escuro, víamos as nossas sombras formadas pelo luar, a areia branca e a espuma do mar, mas de repente vimos algo se mexer alguns metros à nossa frente. Algo que não conseguimos identificar. Meu namorado segurou meu braço e me fez parar: "Leila, o que é aquilo???", disse ele baixinho.
Ficamos ali paralizados por alguns instantes. Víamos apenas um vulto. Devia ter no máximo uns 60 centímetros de altura e uma cabeça grande que parecia uma bola, um ventilador! Abaixo, algo que pareciam pequenos pés. A figurinha parecia estar executando uma estranha dança. Pulava e rodava, alheia a nossa presença.
"Parece um saci!", disse eu. "Tá vendo o cabeção?" Nós segurávamos as nossas mãos com força. Começamos a nos afastar lentamente em direção às dunas. Mas outra coisa nos fez sair correndo: naquele momento houve um apagão, um black out e as luzes da cidade à frente desapareceram! A lua foi coberta pelas nuvens e ficamos numa escuridão total!
Não era mais possível identificar coisa alguma. Corremos aos tropeções, caindo na areia, sem enxergar absolutamente nada. Acabamos caindo dentro de um buraco enorme onde possivelmente alguém havia usado para fazer suas necessidades e ficamos com um cheiro horrível.
Já estávamos bem próximos da cidade quando a luz voltou. Entramos na água do mar para lavar nossas roupas e tentar tirar o fedor. Mas parecia impossível! Quando conseguimos encontrar nossos amigos, alguém falou: "Vocês estão fedendo!!! Saiam daqui!!!"
Era verdade. Voltamos pra casa de ônibus, jogamos fora a roupa que vestíamos, tomamos banho e fomos dormir. Mas até hoje não sabemos o que foi que vimos naquela praia.
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Se nos habituarmos a conviver somente com um grupo específico de pessoas, nossa mente parece que fica condicionada ao pensamento daquele grupo. Por exemplo: surfistas que só convivem com outros surfistas, donas de casa que só fazem tricô entre si, nerds que só se comunicam com outros nerds, e por aí em diante. É muito fácil acontecer. É o lé com lé, cré com cré.
Sempre gostei de quebrar essa lei e conhecer grupos variados, descobrindo como são as pessoas diferentes de mim. Acho que me comunico bem, pois sou bem aceita em qualquer lugar.
Não posso esquecer uma vez nos Estados Unidos, quando estava caminhando pela calçada com um amigo e em direção contrária vinha uns três caras que mais pareciam cantores de rap e personagens dos vídeos do Eminem. Ao passar por mim, me cumprimentaram. Meu amigo se espantou: "Você conhece esses caras???" Mas eu conhecia sim.
Com um deles, o Shawn, tinha acontecido uma coincidência incrível. Numa vez que vim ao Brasil, levei para os Estados Unidos um livro que gosto muito de ler. Na saída do trabalho, fui mostrar o livro para um amigo, pois várias vezes havia mencionado o mesmo nas nossas conversas.
"Finalmente trouxe o livro pra te mostrar!", disse eu abrindo a mochila e pegando o livro.
O Shawn, que eu ainda não conhecia, estava do lado desse meu amigo, só observando. Quando tirei o livro da mochila, o Shawn sorriu e abriu a mochila dele: estava trazendo consigo o mesmo livro!!!
Qualquer que seja o grupo, a turma, a praia, sempre encontraremos algo em comum.
Abaixo, um vídeo do Eminem, que me faz lembrar do Shawn, com aparição rápida da Brittany Murphy.
http://www.interscope.com/eminem
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Antigamente eu costumava pensar que a vida se divide em fases, mas depois preferi dizer que eram ciclos, porque dá uma idéia melhor da sequência de eventos, que inicia e se completa, que se abre e fecha.
É fácil perceber quando um novo ciclo está começando. É sempre a experiência nova, o caminho que repentinamente se abre em nossa frente. Quando passei num concurso público e fui tomar posse me senti assim. Seria um ambiente novo, novos colegas, novos horários, novas ruas que eu teria de percorrer diariamente, uma nova rotina.
Várias vezes percebi claramente a chegada de um novo ciclo. Acho que todos percebem a maioria deles e é fácil reconhecer isto. O ingresso na universidade, a mudança de emprego, mudança de bairro, de cidade. São marcos típicos do iniciar de uma nova fase.
Entretanto, nem sempre é fácil perceber que, alheio à nossa vontade, um ciclo está se fechando. O final de uma fase, de um período. Quanto tempo demora pra "cair a ficha"?
Eu tenho uma maneira de perceber isso, que não sei se é a que todos têm. Será que cada um tem seu jeito de perceber quando o fim de qualquer coisa está próximo? Vou tentar explicar o meu jeito.
Enquanto estamos dentro do ciclo, tudo o que faz parte dele nos pertence. É o nosso trabalho, nossa mesa, nossa cadeira. Num relacionamento, é o nosso carro, nossa casa, nossa cama. Até num grupo de amigos é a nossa rua, nossa calçada, nosso clube, nossa praia. Nós absorvemos as coisas de cada ciclo como se fossem nossas.
E quando o ciclo acaba ou está prestes a se fechar sem que haja qualquer anúncio? Aí está o ponto. Perceber antes é vantajoso.
Quando um ciclo vai se acabar, começo a sentir que as coisas, que antes eram "minhas", não são mais. Como se todo o cenário daquele período passasse a pertencer a outras pessoas, não a mim. Não é mais a minha mesa, a minha rua, a minha calçada, a minha turma, a minha sala... Então eu sei que o ciclo está se fechando através desses pequenos sinais.
Tive um amigo que tinha esta mesma maneira de visualizar o final de um período. Às vezes eu dizia pra ele: "Estou doida pra esse ciclo se fechar logo!" ou então "Queria que esse ciclo durasse mais um pouco". Mas parece que independe da nossa vontade. Vivemos o que tínhamos de viver naquela fase e ponto final. Acabou-se.
Nunca me senti aborrecida quando um período, uma fase, um ciclo se fechou. Meu sentimento é mais de surpresa. Quando fecha, está encerrado e não há nada que se possa fazer.
Na verdade, eu ficava mesmo na expectativa de uma nova fase. Telefonava para o meu amigo e dizia: "Estamos num período entre ciclos!" O período que nada acontece e que, felizmente, costuma ser breve.
Mas o final, eu captava logo. Era só olhar à minha volta e observar que os objetos, as pessoas e todo o cenário já não eram mais "meus", não me pertenciam. Então eu já ia começando a pensar em novas coisas, novos lugares, pois já sabia que era final de ciclo e uma nova etapa logo iria começar.
E você, querido leitor, como é que a sua ficha cai?
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Quando saiu da cidade, meu melhor amigo deixou um cartão de despedida. Não era um cartão comprado em loja. Era um retângulo de papelão onde ele escreveu à caneta a seguinte frase:
"A ave sai do ovo. O ovo é o mundo.
Quem quiser nascer
tem que destruir um mundo..."
A sentença foi extraída do livro "Demian" de Hermann Hesse, que nós havíamos lido pouco antes de sua partida. O romance conta a história de um rapaz que pela primeira vez sai da casa dos pais e encara o mundo.
Era isso que meu amigo iria fazer. Deixaria para trás sua zona de conforto. A casa dos pais, o ambiente familiar, onde tinha de tudo sem que precisasse fazer esforço algum e seguiria por um caminho totalmente desconhecido. Ele era a ave que se preparava para sair do ovo e o mundo que teria de romper era o único que então conhecia.
Pra começar a fazer uma coisa nova, precisamos deixar de fazer a que estamos fazendo no dia de hoje. O apego não existe somente em relação às pessoas e aos objetos. Podemos nos apegar também a um tipo de vida que estamos levando.
Qualquer mudança exige um rompimento com alguma coisa que irá passar a fazer parte do passado e da memória. É necessário coragem e determinação, mas vale a pena. A vida é movimento.
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