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Os Caminhos da Liberdade

quinta-feira, 12 de novembro de 2009 by Leila Franca


Hoje eu estava lendo no Globo sobre o protesto dos estudantes da UnB, onde vários alunos e alunas usavam trajes mínimos, contando inclusive com a participação de estudantes completamente despidos. Entretanto, não li em nenhum lugar sobre a reação das pessoas em relação a forma com que foi feito este protesto.

Não sou uma pessoa moralista, mas sem dúvida a visão de uma pessoa completamente nua pode causar um impacto se formos pegos desprevenidos.

Eu me lembro que uma vez fui a um acampamento com um grupo grande de amigos. O local, uma praia no estado do Rio de Janeiro, ficava cheio de barracas de outros campistas, mas depois de um ou dois dias, todo mundo já se conhecia.

Tomávamos banho numa espécie de chuveiro ao ar livre. De tardinha havia até fila. Numa tarde, enquanto eu e minhas amigas aguardávamos para tomar banho, o que fazíamos vestidas em nossos biquinis, fomos pegas de surpresa quando um rapaz tirou a roupa toda e ficou nu na frente de todos os que esperavam na fila.

Rindo muito, nós garotas, voltamos para a barraca sem tomar banho. Alguma coisa na maneira como fomos criadas não nos deixou permanecer ali diante daquele rapaz coberto apenas por espuma. Ele agia com naturalidade, concentrado no banho, mas não conseguimos ficar na platéia.

Group of Friends Camping

Neste mesmo lugar, não me lembro se no mesmo ou em outro verão, fizemos amizade com todos como sempre e era muito comum irmos à cidade passear depois do dia de praia. Eu e mais dois amigos andávamos na areia até a estrada onde esperávamos o ônibus, mas neste dia, uma senhora de uns 50 anos, que já conhecíamos da praia, vinha vindo em seu carro e nos ofereceu carona. Aceitamos.

Minha amiga e o irmão dela foram no banco de trás e eu (logo eu!) fui na frente. Já estávamos conversando animadamente quando reparei que a mulher estava usando somente uma túnica de croche, sem nada por baixo. Digo, ela não usava nenhuma roupa além da túnica, nem sutiã nem calçinha e dava pra ver tudo! Eu olhei para trás e arregalei os olhos para os meus amigos, mas eles não entenderam o que eu queria dizer e, lógico, eu não podia falar!

Fiquei pensando: e se o carro escangalhasse? Se furasse um pneu? Mas que idéia! É cada uma que me aparece! Será que ela havia esquecido de vestir as calças? Será que achava confortável? (eu não acharia!) Suspirei de alívio ao sair daquele carro.

Numa outra ocasião, fui num caixa eletrônico com meu marido. Enquanto ele fazia lá aquele ritual de colocar e tirar cartão, esperar papelzinho, conferir extrato etc, uma senhora que usava o caixa ao lado simplesmente arriou as calças compridas e fez xixi na lata de lixo!!! Eu cutucava o meu marido pra ele ver aquela cena surreal, mas ele estava tão concentrado nas contas que só disse "espera aí" e não olhou! Novamente eu fui a única espectadora de uma cena incomum.

Couple at ATM

Mas tudo é relativo. Sempre há os dois lados da moeda. Eu tinha 17 anos (bota tempo nisso!) quando fui à Brasília com uma amiga, a tia e a prima dela. A tia e a prima moravam em Brasília, tinham vindo ao Rio visitar minha amiga e na volta nos convidaram para conhecermos aquela cidade. Fomos muito bem.

Chegando em Brasília passamos a semana passeando e no fim de semana resolvemos sair à noite. Eu e minha amiga estávamos acostumadas com a liberdade no Rio de Janeiro e nem nos passou pela cabeça que a prima, de Brasília, não tinha os mesmos hábitos. Nos divertimos a noite toda e voltamos para casa às 4h da madrugada. O problema é que a prima da minha amiga nunca tinha chegado em casa àquela hora e ela não nos disse nada a respeito. Por isso, não adiantou tentarmos entrar sem fazer barulho. O pai dela estava nos esperando.

Eu e minha amiga fomos colocadas pra fora daquela casa. Sentamos no meio-fio da rua, com as mochilas nas costas e esperamos o dia amanhecer. Minha amiga resolveu ficar na casa de outros conhecidos e eu resolvi voltar sozinha para o Rio de Janeiro.

Contei o dinheiro que ainda tinha no bolso e dava certinho pra passagem. Só que eu esqueci, que teria 30 horas de viagem pela frente... não poderia comer! No ônibus, além de mim, só haviam mais dois passageiros. Um homem e uma senhora. Eu fiquei na frente, o homem ficou no meio do ônibus e a senhora estava quase no último assento. Ninguém falou uma palavra na viagem.

Bus

Tarde da noite, o ônibus parou no meio do cerrado e dois guardas rodoviários entraram, olharam tudo e perguntaram. "Quem é que está com esta menina? "(eu). Silêncio. Eu só fingindo que estava dormindo, com um olho fechado e outro aberto. "Não tem ninguém com esta menina?" Falaram alto. Eu me mexi e olhei pra eles. Quando eu ia abrir a boca pra falar, ouvi a mulher lá no fundo do ônibus dizendo: "Está comigo!"

Os guardas foram embora e eu suspirei de alívio. No dia seguinte, ainda em viagem, o ônibus parou e eu fui falar com a mulher. Contei a história toda e ela me pagou um almoço. Ela foi mais uma das pessoas que não soube sequer o nome, mas nunca vou esquecer.


4 comentários:

  1. Francisco Castro
    12 de novembro de 2009 22:36

    Olá, Leila!

    Realmente, realizar protestos completamente despido estpa fora de propósito. Entretanto, agredir verbalmente pessoas porque usa um vestido mais curto beira à idiotice ou à loucura. Quantas daquelas pessoas que agrediram aquela moça são piores do que elas em termos de moral? Certamente muitas, incontáveis. Aquelas pessoas que agredira a moça nunca deveriam terem feito aquilo.

    Abraços

    Francisco Castro

  1. Luísa
    13 de novembro de 2009 08:50

    Uma viagem extraordinária! Há pessoas que passam pela nossa vida e deixam a sua marca. Mesmo sem nada sabermos delas elas contribuem para as nossas recordações e reflexões.

    Excelente crónica!

    Beijos
    Luísa

  1. Rosana Madjarof
    13 de novembro de 2009 13:52

    Oi, Leila!

    Muito legal a sua história, além de hilária...

    Foi uma pena você não estar com uma máquina digital para fotografar a cena da mulher fazendo xixi... hehehehe

    Iria ser a sensação do Youtube... rsrsrsrs

    Adorei!

    Beijos.

    Rosana.

  1. joselito bortolotto
    13 de novembro de 2009 19:17

    As pessoas apesar da pseuda liberdade, ainda não se acostumaram com aquele ditado tão simples, que diz, nossa liberdade termina onde começa a do outro. Vivemos em sociedade, não adianta falar que podemos fazer o que quizermos, não é bem assim, o bom senso ainda está acima de tudo.

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