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Professor sofre

segunda-feira, 16 de novembro de 2009 by Leila Franca


Toda vez que eu passava pela esquina da minha rua de manhã, eu podia ouvir; "UM!!! DOIS!!! UM!!! DOIS!!! LEVANTAAAAAAAAAA!!!!!!!!" - era a voz da Sheila, professora de educação física, dando aula na academia uns 200 metros adiante. Ela tinha que falar mais alto que a música usada na aula de ginástica. Haja voz! E haja fôlego também, pra ficar malhando o dia inteiro!

Além de dar aula na academia, Sheila também trabalhava em escola pública, numa que fica bem junto da comunidade local. Mas o dinheiro que ganhava com estas duas atividades não dava pra nada. Havia ainda a preocupação de acontecer alguma coisa, alguma doença ou acidente que a impedisse de se movimentar e, por consequência, de trabalhar. Foi por isso, que paralelamente ela fez faculdade de Direito e se tornou também advogada. Mas nem sempre era prático ou possível conciliar essas duas atividades.

Pra começar, ela não podia entrar no forum com as malhas que usava para dar aula de ginástica. De vez em quando ela esquecia deste detalhe e acabava tendo que entrar numa loja na cidade, comprar uma roupa, um par de sapatos e se trocar antes de ir verificar algum processo.

Ela tentava separar as coisas. Tinha a hora de ser professora e a hora de ser advogada. Mas quando adolescente, Sheila parecia uma Nadia Comaneci, uma Jade Barbosa na ginástica de solo: não podia negar, mais que advogada, ela era uma atleta! Por isso, por mais que tentasse, acabava misturando as coisas.

Uma vez, depois de uma aula de atletismo, foi para o forum, na maior pressa. Vestida numa dessas roupas de advogada (sapato alto, blusa branca de gola, saia e blazer preto), viu que a entrada do edifício estava quase completamente fechada por uma enorme poça d'água. Grupos de advogados e pessoas do meio jurídico ocupavam as únicas partes secas do caminho, bloqueando a passagem. Por um instante Sheila esqueceu que naquele momento deveria interpretar somente o papel de advogada... Respirou fundo, se posicionou e num impulso, deu uma curta mas poderosa corrida que se transformou num salto enorme que a fez passar voando sobre a poça d'água!!!

Keeping Fit

Os advogados pararam de conversar e olharam incrédulos para tamanha demonstração! "Ohhh!!!" Que advogada, heim?! Sheila ajeitou o cabelo, colocou a gola no lugar, o sapato que quase lhe saiu do pé e foi em frente.

Falando em sapato, depois de passar o dia inteiro dando aula calçando um tênis largo, nem sempre era fácil colocar um sapatinho daqueles pontudo e de salto alto. O pé não entrava. Muito vaidosa, ela fala que vai morrer calçando um salto.

Entretanto, não era sempre que conseguia casos para defender como advogada. Na maioria das vezes tinha de ser mesmo professora em tempo integral e mais um pouco. Ficar às voltas com as crianças, organizar treinamentos, jogos, competições e apresentações.

Foi numa dessas vezes em que o trabalho como advogada estava escasso e ela já não sabia mais o que fazer para pagar todas as contas que chegavam em envelopes, que observou que não estava enxergando direito. O oftalmologista preparou a receita do óculos que ela teria de usar, mas ao chegar na ótica, Sheila quase caiu pra trás quando viu o preço que teria de pagar pelo acessório. Era quase o valor de seu salário! Mas o que fazer? Teve de comprar o óculos em muitas prestações mensais.

Fazia poucos dias que ela usava o óculos bifocal caríssimo, quando teve de levar seus alunos para uma competição de atletismo num estádio importante. Para aquelas crianças seria um dia inesquecível e Sheila, a professora, estaria lá para dar ânimo e estimular a garotada!

Na pista de corrida do estádio as crianças já estavam a postos! A excitação e a expectativa da vitória era grande! Sheila estava junto da murada da arquibancada para torcer pelos alunos e coordenar o evento. Muitas pessoas também estavam lá para torcer pelos seus. O árbitro deu o sinal e a criançada começou a correr!

Sheila começou a pular e gritar, levantando os braços! Parecia até carnaval! E foi quando deu mais um soco no ar que seu dedo enganchou naquele óculos caro, que foi arrancado de seu rosto e voou pelos ares bem diante das crianças que estavam vindo!!!

CARTOON START

"NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOO!!!!!!", gritou enquanto o óculos girava no ar! Ela começou a chorar no mesmo instante. As crianças, que esperavam ver a professora animando a corrida, não entenderam nada quando viram a cena! O que haviam feito de errado?

"Meu óoooooculos!!!" Era possível ouvir o grito do lado de fora do estádio. O óculos bateu numa perna, quicou num joelho e fez sua última trajetória até um enorme ralo que recolhia as águas de chuva das pistas e arquibancada.

"Meu óculos! Meu pagamento! Meus 500 reais! Parem a competição! Chamem os árbitros!" Agora as crianças tinham entendido o problema e caíam na gargalhada. Sem ainda perceber o que estava havendo, os árbitros vieram correndo acudir a professora. A competição parou e todos se juntaram em torno do ralo. O óculos tinha ido para o centro da Terra!

Do outro lado do gramado, um dos árbitros veio com a vara de um atleta que já fizera o seu salto em altura e finalizou com êxito a operação de resgate.

De volta para casa, entre um soluço e outro, Sheila foi pensando em como seria bom se no dia seguinte pudesse contar com mais um caso que a fizesse interpretar outra vez aquele outro papel de advogada, pois só assim poderia finalmente pagar seu óculos.

7 comentários:

  1. arte-e-manhas.com
    17 de novembro de 2009 08:12

    Bem, vejo que por aí professor sofre mesmo! Não só com toda a pressão e cansaço gerado pelas aulas como, especialmente, pelo parco salário. Mas a Sheila parece uma mulher cheia de vitalidade e boa disposição! eheh

    A propósito de próteses, eu uma vez engoli um 'pivot'. Esta prótese - um dente incisivo - já ameaçava a visita ao dentista há alguns dias. Estava a comer um bela torrada cheia de manteiga e doce, com aquela gula incontrolável, quando sinto que o dito 'pivot' já lá não estava. Cuspi a torrada e nada: tinha mesmo engolido o meu querido incisivo direito! Grávida da minha filha do meio, sem poder fazer um RX para saber por onde andava o maldito - que tinha um espigão de cerca de 3mm - nem te digo o que o médico me aconselhou a fazer! ahahahah

    Adorei a história da Sheila!

    Beijos
    Luísa

  1. Leila Franca
    17 de novembro de 2009 10:35

    Olá Luísa, que bom ver você aqui. Ainda nem enviei este artigo ao diHITT e você já veio me presentear com sua presença. Obrigada! Tenho guardado na memória uma série de histórias a respeito de dentes e qualquer dia escrevo. Cuidado porque podes tornar-se minha personagem também!

  1. arte-e-manhas.com
    17 de novembro de 2009 14:54

    Leila,

    Eu normalmente, de manhã dou uma vista de olhos no jornal e nos blogues que sigo. E quando tenho um bocadinho leio as notícias e comento!

    Está à vontade! Não me importo de ser uma personagem tua. Guarda a história que eu depois conto-te o resto! ahahahahha

    Beijos
    Luísa

  1. Josy Nunes
    17 de novembro de 2009 15:50

    Oi,
    Leila.
    Bom Dia!!
    Muito legal, gostei muito da narrativa e coitado dos professores sofrem na ficção, na vida real "num" tem jeito pra eles.
    Bjus
    Fica com Deus

  1. Claudinha
    17 de novembro de 2009 20:48

    Leila!
    Quem não faz jornada dupla que jogue a primeira pedra! E quem não precisa de óculos também! Rsrss!
    Tenho uma história sobre óculos também: quando viajo é só o que compro e gasto bastante, porque é o que gosto. Já não quebrei duas dessas preciosidades nos últimos dois meses? Me vi como Sheila, gritando Nãããããooo!
    Bjs!

  1. Elaine
    17 de novembro de 2009 22:28

    Simplesmente fantástico esse texto!!!...relembrei tempos muito difíceis , mas prazerosos...Sou uma professora de Educação Física que já encarou 3 turnos de trabalho diário. Já fui auxiliar de enfermagem, vendedora de calçados, profe de ginástica...ufa! A gente sofre, mas é feliz! Abraços

  1. Leila
    17 de novembro de 2009 23:44

    @Josy: esta história não é ficção...rs
    @Cláudia: consigo imaginar vc gritando!!!
    @Elaine: que bom saber que vc é mais uma batalhadora. Sei que entende bem o que é isso aí. Seja bem vinda ao meu blog!

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