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Uma Carona Inconveniente

terça-feira, 10 de novembro de 2009 by Leila Franca


Quando aprendi a dirigir eu tinha 18 anos. A única coisa que fiz de errado na prova de direção foi tentar ligar o carro até o instrutor do detran me avisar que o carro já estava ligado.

Aprendi a dirigir num fusquinha, aliás já dirigi muito carro velho cheio de macetes pra poder funcionar. Antes eu tinha bloqueio: se o carro tivesse com algum problema eu preferia sair de ônibus, até que minha analista me convenceu de que quem dirige, dirige também os problemas. Então passei a dirigir tudo que é lata velha: carro que a porta não abre, depois não fecha, que o banco cai pra trás, carro sem freio de mão, sem espelho, sem limpador de para-brisa etc.

Abandoned Car

Logo que comecei a dirigir perguntei ao meu pai: "Pai, o que eu devo fazer se algum dia eu bater no carro de outra pessoa, quer dizer, se a culpa for minha?" E meu pai me respondeu com toda a sua sabedoria: "Você sai do carro, vá até o carro que você amassou e diga o seguinte ao motorista: Olha só o que o senhor fez!!!".

Mas eu nunca passei por nenhum acidente grave (só aquela vez que eu parei num sinal vermelho que ninguém para e o motorista que vinha atrás de mim teve perda total, embicou até o teto, ao bater no meu carro). Morando no Rio de Janeiro, logicamente, também já roubaram meu carro, mas sobre isso escrevo depois.

Sou educada no trânsito, cedo a vez, não xingo nem perco a classe, só quando alguém faz uma loucura pra me ultrapassar e depois fica andando feito uma tartaruga na minha frente. Só faço zigue-zague quando estou com pressa. Mas nunca bati dentro da minha garagem, só enganchei no carro da minha mãe e também teve uma vez que não reparei que uma cadeirinha de praia enganchou no meu carro dentro da garagem e eu acabei indo para o trabalho com aquela cadeira pendurada na traseira.

Depois melhorei de vida e comprei um carro semi-novo, mas só fui dirigir carro automático depois que fui morar nos Estados Unidos. Eu não cheguei a comprar carro lá, porque tinha o metrô, mas alugar carro naquele país não é tão caro como no Brasil. Agora, caminhão de mudança lá é caro. Talvez seja por isso que os americanos quando se mudam deixam tudo na casa e levam só uma mala.

Teve uma vez que eu e o americano que morava comigo resolvemos nos mudar de Springfield para Boston. Eram três horas de viagem e ele cismou de levar nossas coisas num caminhão. Ele alugou um caminhão, mas o problema é que ele não tinha carteira de motorista! Eu falei pra ele que a minha carteira não me permitia dirigir aquele tipo de veículo, então ficamos com um problema. Caminhão alugado, mas sem ninguém pra dirigir.

Um amigo nosso se ofereceu pra dirigir o caminhão. Problema resolvido, só que eu teria que dirigir o carro do rapaz pra ele poder depois voltar pra casa, já que devolveríamos o caminhão na cidade para onde estávamos nos mudando. Eu não sabia o caminho a tomar, então o caminhão iria na frente e eu atrás no outro carro. Tudo certo.

No dia da mudança, eu fiquei arrumando as coisas enquanto os dois americanos iam enchendo o caminhão. Só quando fui do lado de fora é que eu vi o carro que eu teria que dirigir... Era um carro conversível vermelho, baixinho, que eu nunca tinha visto de perto.

Toyota's New Soarer

Mas a surpresa maior não foi somente o carro. Meu amigo tinha uma cobra chamada Jack que vivia num terrário. Eu pensei que esta cobra fosse em alguma caixa dentro do caminhão, mas ele disse que deixaria a cobra com uma amiga antes de seguirmos a viagem e por isso a cobra iria conosco só até a casa da garota...

Quando liguei aquele carrinho vermelho senti o poder do ronco do motor... ai ai ai... O americano que morava comigo apareceu com a cobra enrolada no pescoço e se sentou do meu lado. Eu, morrendo de medo, disfarcei e disse que só tinha medo de alpaca (assista o vídeo e entenderá).


Foi só encostar o pé no acelerador e o carro deu um pulo pra frente e saímos em disparada! Eu olhava pra frente, mas ao mesmo tempo prestando atenção na cobra que começou a se desenrolar do pescoço do meu amigo e vir com meio corpo no ar na minha direção. Eu já estava meia que virada de lado e a cobra chegando perto do meu cabelo!

O outro americano no caminhão corria mais do que tudo e em poucos minutos desapareceu da minha frente. Eu apertava mais o acelerador e o carro ia que ia, mas quando fazia alguma curva a cobra quase que caía entre o encosto do carro e as minhas costas.

Ainda bem que a casa da americana que ficou com a cobra não era muito longe. Ela, vendo que eu estava morrendo de medo e querendo curtir com a minha cara, pegou a cobra e enrolou no pescoço, dando uma risadinha pra mim.

Ainda rodamos bastante naquele dia. Meu amigo não era muito bom com mapas. Se íamos para a esquerda eu tinha a impressão que acabaríamos chegando no Maine e se íamos para a direita começávamos a ver as placas apontando Rhode Island. Mas finalmente chegamos em Boston onde o caminhão já tinha chegado há muito tempo.

video: Okiesp

10 comentários:

  1. Bruna
    10 de novembro de 2009 22:42

    Rsrs quanta história envolvendo uma única motista. Não vejo a hora de começar a dirigir. Eu que não sei andar nem de bicicleta torço rpa que seja mais fácil se equilibrar em 4 rodas.

    ^^

  1. João Poeta
    11 de novembro de 2009 00:30

    Oi, Leila, você é uma mulher muito corajosa e tem uma experiência de vida muito bonita.
    Parabéns pelo se jeitinho de ser. Me envolvo muito com o que você escreve. Isso deve demontrar que há muita autenticidade em tudo que diz escrevendo.
    João

  1. Leila Franca
    11 de novembro de 2009 08:06

    Oi Bruna, aprende a andar de bicicleta primeiro...rs Obrigada pelo seu comentário!

  1. Leila Franca
    11 de novembro de 2009 08:08

    Oi João, vc é meu comentarista preferido. Obrigada por estar aqui outra vez.

  1. Claudinha
    11 de novembro de 2009 11:23

    Leila!
    Odeio cobras! Corajosa você! Eu bati o carro uma vez só, num dia de chuva. Não consegui travar porque o chão estava liso. Derrapei e bati em outro carro que havia apagado no meio do temporal. Acho que o carro era roubado, porque o dono nunca me ligou para pedir o conserto!
    Bjs!

  1. Luísa
    11 de novembro de 2009 13:34

    Bem, essa é uma grande aventura! Cobras como animais de estimação é coisa que eu realmente não aprecio. Não tenho nada contra as cobras, coitadas... mas prefiro vê-las no zoo. Conduzir com uma cobra ao lado, penso que não iria gostar, fosse qual fosse o carro! :)

    Abraços
    Luísa

  1. RobMaia
    11 de novembro de 2009 18:11

    Bela história. Seja pela aventura nas estradas, seja pela companhia indesejada da cobra. Uma ótima experiência. Faltou só você dizer se, morando em Springfield, ficou amiga dos Simpsons. Valeu mesmo, Leila. Abraços.

  1. Sissym
    13 de novembro de 2009 15:38

    Leila,

    Eu me identifiquei com muitos entraves seus para dirigir. Acho que muitas pessoas se sentem assim no início. Sua narrativa é para chorar de tanto rir... excelente! Quanto a cobra, eu não teria medo dela e sim do doido que deixa ela ficar enrolada no pescoço. Se resolver apertar... quero ver tirar!!!

    Bjs

  1. Luciano
    4 de maio de 2010 16:47

    Não sei se acho graça ou o quê, muito bom esse post.
    Fiquei imaginando você dirigindo e olhando para frente, e a cobra avançando.

    Hilário!

    Um abraço

    Luciano

  1. RR3075SS
    13 de maio de 2010 18:12

    Oi,Leila! que situação,hein? rs! "Cobras" eu troco por "Cavalos", principalmente se for por 1 "Mustang" V8,... Valeu. Um abração.

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