Subscribe to RSS Feed

Uma rua entre dois mundos

sexta-feira, 7 de maio de 2010 by Leila Franca


Houve um tempo em que todos os dias quando eu saía pra comprar cigarro podia pegar dois caminhos. Poderia ir na loja de conveniência do posto de gasolina ou num boteco numa comunidade carente. Era a mesma distância.

Eu sempre preferia ir na favela porque naquele pedaço de rua acontecia uma coisa muito curiosa: de um lado haviam os prédios com suas portarias e do outro lado, bem em frente, estavam as casas apertadas da comunidade, os corredores e escadinhas escuras. Era um contraste.

Uma coisa de chamar atenção era a quantidade de crianças brincando juntas na rua e na calçada no final da tarde. Uma vez haviam mais de 10 menininhas de braços dados, arrumadinhas, descendo o morro. Os garotos jogavam bola no campinho. Do lado dos prédios não se via uma criança. Deviam estar no computador.

Large group of children (6-13) fishing on jetty

Nos bares, tendinhas, trailers e barraquinhas, o que se via eram grupos enormes de homens e mulheres rindo e conversando, com as cadeirinhas armadas no asfalto da rua, pois a calçada não cabia tanto povo. Do lado dos prédios não se via ninguém. Silêncio total. No máximo era o jardineiro que passava ou um morador que entrava ou saía, carrancudo e apressado.

Na hora do almoço, algumas pessoas saíam de casa com o prato na mão e iam almoçar na calçada, assistindo a televisão das barraquinhas. No lado dos prédios a hora do almoço parecia igual a qualquer outra hora do dia.

De um lado da rua cachorros e gatos vira-latas viviam livres, dormindo preguiçosos entre as mesas dos bares. Do outro lado, poodles brancos de coleirinha vermelha passeavam com seus donos uma vez ao dia. De um lado era possível ver tantas roupas coloridas balançando ao vento penduradas em varais improvisados nas janelas, do outro lado não se via roupa nenhuma.

Colorful laundry

Quando comecei a ir nesse boteco comprar cigarro, eu subia o morro caminhando pela calçada dos prédios, sempre varrida, com o meio-fio pintadinho de branco. Depois de um certo tempo, comecei a fazer o mesmo caminho, mas andando pelo meio da rua. Passou-se mais algumas semanas e por fim passei a fazer meu percurso mais junto do lado da comunidade. E depois de analisar tudo, eu também observei a mim mesma.

Conclusão: acho que gostava mais da favela.


15 comentários:

  1. RR3075SS
    7 de maio de 2010 12:43

    Leila,sinceramente,se eu puder optar,lógico que eu vou comprar o que preciso em um lugar mais "calmo";agora,se eu tiver na fissura (tb fumo),
    com certeza iria até ao infe... digo,ao infinito, e tb como vc, acabaria me apegando ao lugar e às pessoas.Já ouvi dizer que o Gabriel,O Pensador
    prefere os morros à Zona sul,Leblon,Copacabana... Isso é muito bom.
    Parabéns Leila,vc é uma pessoa impar,longânima.So,let's Keep the faith!

  1. Eduardo Montanari
    7 de maio de 2010 12:59

    Eu apesar de tudo como está hoje, ainda acredito na bondade das pessoas. E acredito que na maioria dos casos a pobreza vem acompanhada de uma humildade natural, uma simplicidade que se perde dependendo do tipo de vida que se leva.
    Pessoas são pessoas, nos seus apartamentos e computadores, nos morros e lajes. O que acontece é que cada qual vê a vida a sua maneira. Fico feliz que você tenha despertado essa sensibilidade em você.
    Um abração.

  1. Jack Dieguito
    7 de maio de 2010 13:13

    vc tem toda razao. Viu a diferença?
    Aqui é igual, ou diria pior. As pessoas sao fechadas demais. Quando saio a rua (ainda mais se for no inverno) é raro encontrar alguem sentado conversando com outro (seja na calçada, bar ou praça). Quando me esbarro com alguem, com certeza nao é daqui (ou quem sabe de outro mundo onde nao se perdem tempo com computadores). Viver essa vida que ja é curta, e nao sair a noite pra respirar? isso nao é VIVER.

  1. Joselito
    7 de maio de 2010 13:14

    Bem, uma coisa era certa .... devia haver um certo receio de uns para os outros, ou não. Agua e óleo.

  1. Fernandez
    7 de maio de 2010 13:49

    Oi Leila! Estes contrastes são muito interessantes.
    Gosto de observar também estas curiosas cenas quando passeio pela rua para fazer compras ou para comprar o jornal (todo dia caminho até uma banca).
    Este "isolamento" em alguns lugares é muito ruim, mas não acredito que as pessoas se isolem porque querem, mas sim porque se sentem inseguras com a violência urbana. A questão que fica é... até onde esta preocupação é válida?
    Adorei a postagem.
    Beijos, Fernandez.

  1. Psiquismo Desmistificado
    7 de maio de 2010 15:32

    Oi Leila,
    Mundos tão distintos quanto próximos podem ser.
    Gostei muito do texto. Bastante reflexivo.
    E no final das contas, escolhemos aquilo que damos valor.
    Abraços

  1. Cris Travassos
    7 de maio de 2010 16:29

    O mais interessante é que uns não incomodavam os outros. Esse respeito silencioso e presente é fundamental para que você pudesse fazer a opção de mudar para o outro lado da calçada.

    Beijocas

  1. 30 e poucos anos.
    7 de maio de 2010 17:07

    É claro que a questão segurança deve vir em primeiro lugar mas nem sempre significa ir pela calçada mais limpa e arrumada

  1. Marcos Airosa
    7 de maio de 2010 18:50

    Parabéns Leila vc é sensacional, abraço.

  1. Zergui
    8 de maio de 2010 01:27

    Aqui na minha cidade já não há mais aquele rumorejar de antigamente.

    Vizinhos conversavam entre si, se ajudavam, se encontravam para um jogo de canastra.

    As mulheres ficavam compartilhando “fofocas” entre um chimarrão e outro, entre alguns pontos do crochê.

    As crianças não ficam mais jogando bolinha de gude, uma pelada, ou “taco”.

    Não se vê mais os namorados conversando no portão da casa; ela do lado dentro e ele do lado de fora, sempre controlados pelo olhar vigilante de algum familiar.

    As festas na igreja, aos domingos, desapareceram. Tudo em grande harmonia e tranqüilidade.

    Quase tudo mudou.

    Todos presos atrás das grades de sua própria casa.

    Os meninos condicionados pelo monitor de um PC ou pela tela de TV assistindo uma programação que lhe incita a violência, assim como um jogo de Mortal Kombat.

    Ninguém mais se ajuda. Acabou a solidariedade, o amor ao próximo.

    Os filhos não acatam mais o que seus pais determinam. Acabou o respeito dentro da família.

    Difícil é aquela que não está contaminada por algum dos entes consumindo alguma droga.

    Como é importante recebermos um alerta, como essa sua descrição, Leila, que nos fazem estacionar no acostamento, buscar um espelho para mirar nosso rosto e então nos perguntarmos:

    Por que estamos correndo tanto? Para onde vamos?

    Nesse dia das mães, que na sua maioria deve sentir a aflição por ver seus rebentos envolvidos em um momento tão cruel, com tantas perguntas sem resposta, com tantas incertezas quanto ao futuro, permitam que eu ofereça uma singela menção de:

    “Feliz Dia das Mães”.

  1. joana
    8 de maio de 2010 07:21

    Leila
    Saõ mundos tão diferentes,mas não esqueçamos que ambos são filhos de Deus:tem emoçes,alegrias,tristezas ...de maneira que devemos respeitar cada um.
    parabens pela postagem!
    tem um sabado feliz
    bjs
    joana

  1. Principe Encantado
    9 de maio de 2010 11:48

    Muito bom seu texto amiga, realmente devemos procurar o melhor, mesmo que aos olhos não parecem bem.
    Abraços forte

  1. Jackie Freitas
    10 de maio de 2010 19:53

    Olá Leila!
    Eu nasci e cresci num bairro onde todos se conheciam! Não havia qualquer distinção entre um morador de favela e de um bairro "nobre". Todos brincávamos juntos e era uma delícia! No final de tarde sempre tinha o bolo quentinho preparado por alguma mãe...rs (saudades). Hoje, não lamento tanto por mim, pois eu pude viver esse tempo; mas, por meus filhos viverem cercados por altos muros, presos dentro da própria casa. Ainda bem que aqui onde estou morando tem árvores e muitos pássaros para cantarem para eles. Meu filho Gustavo (6 anos) ontem viu um beija-flor! Nossa, ele ficou eufórico e chamou todos nós em casa para vê-lo. Meu marido disse: "opa, temos um novo amigo!". E são esses os amigos que os muros permitem meus filhos terem!
    Beijos,
    Jackie

  1. Darcy Mendes
    14 de maio de 2010 11:57

    Muito pertinente esse seu texto! Há pouco mais de um ano, para facilitar os estudos de meus filhos e também a ida ao trabalho, de minha mulher, fizemos o caminho inverso da grande maioria e nos mudamos bem próximo do centro da cidade. Depois de morar por mais de 20 anos na periferia, também percebi as diferenças imediatamente: Antes - crianças brincando na rua o dia todo; agora - com execeção dos catadores e pedintes, quase não se vê mais ninguém na rua. Todo mundo só sai de carro. Nem os vizinhos eu conheço!

  1. Darcy Mendes
    14 de maio de 2010 11:57

    Muito pertinente esse seu texto! Há pouco mais de um ano, para facilitar os estudos de meus filhos e também a ida ao trabalho, de minha mulher, fizemos o caminho inverso da grande maioria e nos mudamos bem próximo do centro da cidade. Depois de morar por mais de 20 anos na periferia, também percebi as diferenças imediatamente: Antes - crianças brincando na rua o dia todo; agora - com execeção dos catadores e pedintes, quase não se vê mais ninguém na rua. Todo mundo só sai de carro. Nem os vizinhos eu conheço!

Postar um comentário

Related Posts with Thumbnails

Picapp Widget